Still too young to fail

“Sábado. Quinze minutos pra uma da madrugada.

A noite não está sendo legal com você. Sem sono, sem fome, sem vontade. A pessoa que viria formatar seu HD mais cedo ligou avisando que só vem amanhã. O que estava esquematizado furou, e agora você está lá, perdida e sem saber exatamente com o que preencher o tempo que ficou vago. Liga para a única pessoa que sabe que também vai estar acordada:

Lolla: Tá fazendo o quê?
BFF: Nada. Vem pra cá ouvir programa de flashback.
Lolla: Opa, NEM. (que no nosso dialeto significa uma maneira irônica de dizer JÁ É).

Uma e três da manhã. A chuva acabou de acabar, mas faz frio. Guarda chuva dentro de uma sacola plástica do Carrefour. Calça de moleton, chinelo, camiseta da C&A (“fashion girl”, lol), bilhete pra mãe na porta da geladeira (nunca se sabe), there she goes. Quinze minutos depois meu dedo na campainha. A voz masculina imitando mulher sai do interfone:

“Boa noite… Bem vindo ao Atendimento Online da “Funerária Só Falta Você”. Estamos de portas e caixões abertos para recebê-lo todos os dias, das oito da manhã às cinco da tarde. Temos os melhores preços e planos de pagamento para sua comodidade nesse momento tão difícil. Para reservar seu esquife e deixar suas medidas, disque 1. Para solicitar catálogo com cores, modelos e tamanhos apropriados, disque 2. Para reclamações, disque 3 (atenção! não aceitamos devolução de produtos usados). Para falar com um de nossos atendentes, olhe para trás…“

E você, que já está rindo, comete a imprudência de olhar para trás (nunca se sabe). Ninguém, é claro. Nesse instante, o berro explode do aparelho:

“AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!!!!!!!!”

E você dá um pulo de um quilômetro de altura, xinga meia dúzia de palavras feias e, quando consegue entrar, depois de estapear o comediante, passa a madrugada bebendo pepsi (ARGH) com vodca, comendo biscoito de água e sal com geléia, ouvindo David Bowie e tirando cochilos em meio a papos surreais como “será que os animais têm signo? será que eles têm uma Zora Yonara?” ou “será que alienígenas fazem filmes com humanos saindo de dentro de foguetes da NASA e ameaçando destruir a civilização deles com bombas atômicas e músicas da Kelly Key?”

Não quero que você se mude pra SP. Não quero.“

Outro dia achei esse rascunho de um blog de 2002 (?) e guardei para publicar hoje, no dia do seu aniversário. 13 de Setembro, e a gente sempre torcia para que caísse numa sexta feira – por motivos de sexta ser dia de farra, não por superstição. Você, de fato, não foi para São Paulo; foi pra mais longe ainda, de volta para a terra dos seus pais, dos seus avós e bisavós, um lugar que você dizia detestar: “só a comida presta”, e eu secretamente ria, sabendo que exatamente por isso você estaria feliz lá.

I really hope you are.
Miss you, sweetie. Happy birthday. x

Hello September

Achei numa pasta de cópia de itens enviados do Outlook. De 2002, eu acho. Fiquei aliviada quando percebi que achei mais engraçado que triste.

“Sim, é isso – rir e gozar são as vinganças possíveis, e eu acho que estou mal justamente por querer o impossível, me fingindo de esperta e não aceitando que o sublime não está ao alcance. Eu gostaria de dar de cara com um retrospecto mais ou menos feliz quando desse aquela olhadinha pra trás daqui a alguns anos, mas no momento acho que estou presa no passado de forma meio obsessiva, por ansiedade quanto ao futuro e porque já me vejo repetindo os erros óbvios que devia ter aprendido a evitar. Tenho medo que eles se transformem em padrão de comportamento. Eu estou *sempre* meio triste embora faça as pessoas rirem e elas me achem divertida e eu beba gargalhando em festinhas e eu acredite que não tenho depressão porque fico feliz quando o tempo amanhece nublado + o barulho da chuva no vidro da janela + o cheiro da terra molhada depois + borboletas batendo asinhas entre os raios de sol – cê sabe, esses clichês de felicidade barata e possível, esses prêmios de consolação por não estar num iate em St. Tropez bebendo Bellinis com o amor da sua vida e a barriga da Gisele Bundchen. Mas por sorte eu não preciso extrair a fórceps a beleza das coisas, elas me pulam na cara mesmo e bom, pelo menos isso. Só que anos atrás eu menti para um médico, e ele percebeu, porque me receitou um anti-depressivo tão fraco que eu tinha que rir pra minha cara no espelho e dar rodopios na frente da minha mãe para que ela achasse que o remédio estava funcionando. Não estava. Minha tristeza não era química e a solução teria custado menos do que a conta da farmácia.”

Selfie Days

SDDS Fotolog.
Era ponto com, virou ponto net. No começo todo mundo podia postar fotos e receber comentários à vontade, depois só quem tinha Gold Cam – que custava uma mixaria, mas os brasileiros não aceitaram pagar e ainda reclamavam; altos protestos. Quem não tinha Gold Cam podia postar uma foto por dia e receber até 10 comentários.

Mas os brasileiros, sempre geniais no jeitinho, inventaram a solução: depois de receber os dez comments eles copiavam todos, deletavam tudo e colavam os dez em UM comentário só, assim liberando espaço para mais dez. O processo era repetido até chegar no mesmo limite de cem comentários por foto de quem pagava Gold. Dava trabalho, mas quem era pop, porém pobre (ou pão duro) resolvia o problema. Ah, a internet moleca de várzea.

Quanto eu fiz minha conta lá eles ainda tinham um número estranho (8080) na url do site, que depois sumiu e eu jamais entendi. Havia poucos brasileiros e os gringos adoravam bajular as meninas que postavam selfies. Os mesmos que mais tarde se aborreceram quando o site foi literalmente INVADIDO por brasileiros postando selfies de webcam e foto de balada. Nunca vi tanta xenofobia junta por um motivo tão imbecil – afinal de contas nenhum gringo com aspirações a Cartier-Bresson era obrigado a seguir quem só postasse ego-shot.

A minha câmera também era uma webcam, resolução VGA baixíssima. Eu descobri que ligar um abajur aceso na minha cara eliminava imperfeições na pele (leia-se: o meu nariz) e também funcionava como flash para iluminar a foto e eliminar o ruído (aquelas granulações que estragam a imagem quando você fotografa em ambientes escuros). Depois observei que se deixasse o abajur ligado e apagasse a luz do quarto a foto ganhava um efeito mais dramático. E a minha cama ao fundo, desfeita e coberta de roupa suja, magicamente desaparecia.

Eu estraguei muitas fotos que fiz nessa época usando o blur do photoshop pra “desfocar” o background, mas tem uma ou outra pérola em meio às porcarias. Lembro que uma das minhas imagens foi parar numa matéria da Wired; foto da qual eu não me orgulho (especialmente por causa da pose ruim e de um prato de comida vazio abandonado ao fundo). A foto que ilustra esse post é uma das favoritas dessa fase, por causa do contraste, da estampa da blusa (feita pela minha mãe) e do detalhe da sombra que o brinco projetou na minha pele – brinco esse que eu tenho até hoje, só não tenho mais coragem de usar.

Cocoricó

Momentos de diversão no trabalho: certo dia, numa esquina próxima do nosso querido galpão em Bonsucesso, amanheceu um despacho colossal. OITO alguidares (tigelas de barro) cercados de uma infinidade de velas pretas e vermelhas. Dentro de cada alguidar, uma camada caprichada de farofa amarela + pimentas dedo-de-moça inteiras + uma galinha preta com pena e tudo, tudo rodeado de garrafas de cachaça Pitu. Nada contra a liberdade de culto, mas OITO? Não seria SETE o tal número cabalístico?

Raciocinei. Cabalístico o cacete. Puseram oito galinhas mortas porque são oito as pessoas que vão “rodar” e ir bater ponto no além por causa dessa macumba.

O meu raciocínio até podia proceder, mas a prática revelou uma falha: uma das galinhas estava VIVA. Na verdade até quiseram matá-la (o imenso talho em seu pescoço demonstrando claramente a sórdida intenção), porém cagaram o serviço – devia ser fim de expediente no terreiro, sexta feira, geral já com a cabeça no feriadão, eu entendo – e a bicha cacarejava ALTO caída dentro da tigela. E a cada cacarejo o talho no pescoço cuspia sangue. THIS IS GORE, my son. Virou o espetáculo da rua, as criança tudo apostando dinheiro em quanto tempo a agonizante levaria até dar seu último cocoricó e se unir ao papagaio do esquete do Monty Python no céu dos pássaros desencarnados.

O moço da limpeza, que tanto gosta de animais, se apiedou do sofrimento da bicha. Teve coragem de bulir no despacho, recolheu a penosa moribunda e, enquanto todos nós pensávamos que ela seria encaminhada à panela (com o perdão dos orixás, mas desperdício de carne é pecado), ganhou ao invés disso um curativo no pescoço, feito com pano e papa de erva-de-santa-maria. Isso foi na semana passada, e hoje temos uma galinha correndo alegremente de um lado a outro no galpão da empresa, detonando punhados e mais punhados de farelo de milho.

Um dos oito capetas que ia se beneficiar do banquete ficou com fome. Mas a galinha Umbandinha (not my fault) ficou viva para contar (?) a surpreendente história da sua quase morte. E me apraz pensar que um dos oito condenados que iria ganhar passagem sem volta pro inferno por causa daquela macumba, talvez esteja, assim como a galinha, vivo neste dia de hoje.

(post publicado originalmente em 15/10/2003)

Mais um pedaço.

Ela vinha rindo me contar que tinha se cortado porque mordeu a língua ao mascar chiclete.

Perguntou se dava pra acreditar e ria, puxando a manga da blusa e mostrando os cortes de gilete cruzando os braços esqueléticos de um lado a outro, cortando caminho em volta das picadas de agulha. Eu respondia que a emenda tinha ficado pior do que o soneto e ela não entendia o ditado, falava “não entendi a piada, conta outra” e ria sem parar enquanto a cerveja esquentava no copo e a gordura congelava em volta das fatias grossas de linguiça que ela não ia mesmo comer.

Era verão, mas as mangas da sua blusa eram sempre longas.

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É engraçado olhar para essa foto e pensar que nunca mais vou sentar nessa sala novamente. Eu escolhi essa porta na madeireira, eu escolhi esse sofá desconfortável na loja de móveis, eu quebrei esse vaso redondo de flores, eu pintei essa parede. Eu tinha uma mecha acobreada no cabelo e não tenho mais. Outro dia mesmo eu joguei esse vestido fora. Eu esqueci esse chapéu no ônibus. Eu vivo esquecendo chapéus no transporte público. Essa menina sou eu, mas eu não me reconheço na foto. Nela eu estou mais jovem, mais gorda, mais ingênua, menos cínica e estava aprendendo a usar o timer da câmera e o tripé. O interesse por fotografia vem diminuindo com o tempo. O interesse por decoração de interiores, não. Para ser sincera eu nem sei se me lembro direito da pessoa sentada no sofá. Hoje eu não faria uma mecha acobreada no cabelo, mas me pareceu uma idéia excelente na época. Exceto a mecha, eu não me lembro do que fazia na época. Dessa sala, no entanto, eu me lembro muito bem.

Aleatoriamente.

Na escola, eu:

Não era nerd, nem popular, não tinha os amigos certos (e nem os errados).
Sentava no fundão, não pra fazer bagunça, mas para ficar longe dos professores e das patricinhas puxa saco que sentavam perto deles.
(e deu certo, eles não percebiam a minha existência)
Sempre quis levar meus cachorros pra aula; achava que a experiência seria muito mais agradável.
Nem sempre saía da sala na hora do recreio.
Comprava salgado + refrigerante. Quase sempre “joelho” ou enroladinho de salsicha.
Gostava de dormir na debruçada na mesa. E às vezes babava.
Notei que as pessoas escreviam letras da Legião Urbana à lápis na mesa.
Adorava as aulas de biologia, inglês, história e literatura.
Detestava todas as aulas de exatas, exceto por um ano em que o professor de Química era bacana.
Ficava me achando porque meu namorado encapava meus livros com xerox de mapas antigos.
Pedi para uma menina que copiava letras de música para os outros para copiar Timidez do Biquini Cavadão pra mim a fim de puxar conversa. A amizade durou anos.
Era boa de decoreba dinâmica. Memorizava tudo, largava na prova, esquecia tudo em seguida.
Tirava boas notas. Quer dizer, aceitáveis. Menos em exatas.
Usava saia de tergal azul marinho plissada + a camiseta de malha da escola. Tinha alguns furos nela.
Não curtia usar sutiã pra fazer educação física. Não curtia fazer educação física.
Percebi que todas as minhas professoras de educação física eram lésbicas.
Achava besta pular corda. Preferia pular elástico, era mais intelectualmente desafiador.
Ia andando pra escola sozinha, e aproveitava o trajeto para pensar. Isso quando a mãe não dava carona no Fusca.
Não tinha a menor vergonha de ganhar carona da mãe. Ganhava de longe de ter que voltar pra casa na chuva.
Muitos dos meus melhores amigos até hoje foram feitos na escola.

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Tá ficando bonita a primavera, que finalmente decidiu dar as caras. Mas hoje o tempo nublou, como se para avisar que a) quem dá as cartas aqui é a Natureza, não o serviço de previsões metereológicas e b) ingleses têm o seu caráter formado nas adversidades; muito sol, calor e tulipas coloridas não condizem com a realidade de um povo que encara verão e calor como breve novidade seguida de inconveniência, que nunca sabe exatamente o que vestir quando a temperatura passa dos 30 graus e que nunca se deixa acostumar muito às coisas boas – porque foram criados por gente que ainda se lembra de que elas podem ser temporárias.

E hoje, combinando com a chuva, temos médico. Joinha.

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Meu pai chegou no domingo. Sem falar português no aeroporto, foi “detido” até que descobrissem a que tinha vindo. Puseram uma pessoa que falava espanhol para conversar com ele. Me custa crer que numa cidade cheia de brasileiros seja impossível contratar um para traduzir em Heathrow. Ou talvez seja justamente isso que eles não querem; um conterrâneo para “facilitar” as coisas.

Enfim. Ele já está instalado. E querendo ser útil, me pedindo coisas com frequência a fim de ajudar, infelizmente num momento da minha vida em que eu só queria tomar um calmante e dormir o dia todo. Mas vamos levando, e é bom saber que ele gostou da casa, do lugar e parece estar se divertindo. Meu pai sempre diz que a saúde dele melhora assim que ele pisa aqui.

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(Fotos feitas em Regents Park e na vizinhança)

Indimenticabile.

Outro dia me perguntaram “qual parte do meu passado eu não conseguia esquecer”. E eu nem sei se tem uma parte específica; sei que há várias ocasiões de épocas diversas da minha vida que eu sei que vão estar sempre na memória. Por motivos bons ou por motivos péssimos. E às vezes por nenhum motivo aparente. Por que será que a gente não consegue lembrar de algumas coisas dadas como importantes, mas nunca esquece de certos momentos bobos que não deveriam ter a menor relevância?

O dia em que carreguei uma caixa enorme com uma árvore de natal, revezando com um amigo, do centro da cidade onde a comprei até a casa de uns amigos dele e de lá até a minha casa do outro lado da cidade. O dia em que caí de uma árvore dentro de um buraco no chão onde cortei a barriga num pedaço de vidro e fui carregada pelas vizinhas até a casa de uma enfermeira para limpar o corte, me achando “especial” (eu tinha uns 4 ou 5 anos). O dia em que o muro dos fundos da casa desabou com uma chuva forte de março, quase matando a minha mãe – ou do dia em eu quase a matei de susto, quando brincando de pique esconde caí e bati com a cabeça na cama fazendo o sangue jorrar. O dia em que um cara numa bicicleta atropelou uma vizinha que me carregava no colo e eu caí, e meu pai correu atrás do cara com o rodo gritando que ia matá-lo (com um rodo??). O dia, ou melhor, começo de noite de sábado em que voltei feliz da casa de um amigo e meu pai me levou até o canteiro no jardim onde ele havia acabado de enterrar minha gata, que morreu envenenada enquanto estive fora.

Meu aniversário de dez anos com os meus amigos mais velhos, onde todo mundo caiu na piscina e eu pus metade deles pra dormir no banheiro depois. A formatura do pré-primário, em que eu fui a oradora e a professora me deu uma faixa de papel crepon onde se lia “Miss Devora Livrinhos” – o primeiro reconhecimento de uma paixão que me consumiu a infância: ler. O dia em que essa paixão começou a se tornar possível quando escrevi a lápis, sem nem perceber o que estava fazendo, as vogais na carteira da escola – e o meu choque por perceber que tinha conseguido.

O dia em que acordei pela manhã com meu pai batendo no vidro da janela do quarto e, quando eu e minha mãe abrimos, o portão de ferro da garagem também estava aberto; tinham roubado o nosso fusca. A primeira vez que vi esmalte preto na vida, na casa de uma prima onde eu estava passando uns dias, e quando voltei pra casa minha mãe ficou apavorada com as minhas unhas góticas. As festas góticas onde as meninas faziam dancinhas ao som de Bauhaus e enchiam a cara de coca cola com campari, martini, cachaça, o que tivesse. As festas indie em Copacabana nos mesmos locais que nos outros dias da semana serviam como puteiro.

Passar a tarde antes do natal lambendo tigelas de massa de bolo crua e assistindo especiais natalinos na TV. O dia em que meu namorado gritou comigo pelo telefone e, antes mesmo de a gente se encontrar pessoalmente, eu pensei “esse cara não presta”. O dia em que ele riu quando eu cantei pra ele ao telefone – e depois disso eu nunca mais consegui nem ouvir a música em questão. O dia em que eu estava dançando em uma festinha de criança e uma garota um pouco mais velha riu de mim e perguntou ao meu pai se eu era maluca. O dia em que eu chorei no banheiro do trabalho por estar exausta de tanta injustiça.

Ler o primeiro livro que li na vida, cada dia um capítulo, na casa da vizinha onde minha mãe me deixava para que pudesse sair. Os concursos de dança com as crianças da rua na calçada da casa onde cresci. O tom exato de cornflower blue dos olhos do meu namorado. O cheiro de perfume de maçã verde que eu usei no dia em que fui ver Karatê Kid no cinema com uma amiga. O dia eu e outra amiga fomos barradas na fila de um filme censura 14 anos – ela tinha 13 e cara de criança; eu com 11 certamente teria entrado se ela não tivesse estragado tudo, aquela linda. O dia em que deu vontade de fazer xixi numa festa junina, ninguém topou deixar a gente usar o banheiro e fomos de xixi coletivo numa rua nem tão deserta assim.

Manhã de domingo pós-festinha de criança, com bolo e docinhos no freezer para o café da manhã e as lembrancinhas pra incorporar às brincadeiras de casinha do dia. Manhã de domingo com meu pai me trazendo jornal, coca cola e sanduíche de mortadela na cama. Minha mãe chorando quando eu comecei a chorar de medo no carrossel. Quando minha amiga, que tinha sido dada como morta depois de cair de uma roda gigante, saiu do hospital e veio de pijama e curativos na cabeça pra minha casa e a gente fez uma festa de aniversário pro meu pai – uma lata de goiabada com uma vela de cera no meio. Meu pai todo feliz e dizendo que ela ter sobrevivido era o presente dele. Essa mesma amiga anos depois me escrevendo uma carta diretamente da cadeia, contando que se lembrava desse dia. O pré-trote de calouros na minha primeira faculdade e toda a humilhação que eu senti. Todas as coisas horríveis que ouvi das colegas de curso. Todas as coisas horríveis que li de pessoas aqui na internet. Todas as coisas lindas que fizeram por mim, que eu disse e ouvi dos meus amigos sem que a gente precisasse falar.

Enfim, a gente poderia passar milênios enumerando e ainda assim esqueceria quase tudo. O que não deixa de ser meio irônico, já que são coisas que a gente jamais vai esquecer – mas não dá pra espremer e sair tudinho de uma vez, que nem um tubo de pasta de dente. A memória é uma filhadaputa caprichosa. Apaga lembranças reconfortantes e quentinhas feito um abraço de amigo ou edredon pós banho no inverno, e mantém as desagradáveis e doídas, feito pisar em caco de vidro ou morder uma pedrinha dentro da massa do pão. Mas a beleza de estar vivo é que essa lista, de um jeito ou outro, está sempre crescendo.

Blue is a colour.

A primeira vez em que vi você depois da infância teve trilha sonora: trovões. A chuva não estava nem perto ainda, mas os céus já estavam cor de hematoma e se fosse mesmo chover daquele jeito o mundo ia acabar num remake do Dilúvio. Eu fiz uma piada ruim – como todas as outras que eu já havia feito e farei na vida – envolvendo uma suruba coletiva na arca de Noé para repopular o planeta quando percebi você ali. Quer dizer, “perceber” não era bem a palavra. Até hoje não descobri qual dos meus sentidos acusou a sua presença primeiro, mas tenho quase certeza de que senti o seu cheiro antes mesmo de distinguir a sua voz em meio às risadas mornas que a minha piada recebeu por educação.

Revi primeiro os seus sapatos. Botas pretas e curtas de couro, que deixavam à mostra as meias cor de vinho. Era tão improvável aquela cor que eu nunca mais a esqueci; acho que sou capaz de apontar o tom na escala Pantone. Outro dia mesmo comprei um pacote com seis meias no supermercado e, quando achei entre elas uma quase da mesma cor das suas, tive um déjà vu desconfortável; até as suas meias são difíceis de esquecer.

16 anos de carisma inabalável e eu lá, mal entrada nos treze e calçando chinelo cor de rosa – o equivalente na escala de coolness de fazer xixi na cama. Não havia a menor condição de competir, menos ainda depois que a piada ótima que você fez da minha piada ruim detonou uma explosão de gargalhadas na platéia. Filho de uma puta. Só não te odiei mais naquela hora porque minha lógica torta me soprou a seguinte idéia errada: “ele está te dando mole”.

Até hoje não sei o que me levou a concluir aquilo, já que você nem sequer estava olhando na minha direção e tinha uma moça pendurada no seu pescoço. Vai ver o fato de você também não estar olhando na direção dela tenha me dado esperança – quando o mundo não conspira a nosso favor a gente faz o que pode pra acreditar. Encarei a sua bochecha por uns seis segundos até que você se dignou a olhar para mim, com aquela outra cor que eu também nunca vou esquecer. E aí você riu, e eu ri também, e aí danou-se e a meia hora seguinte pegou a gente sentado num banco de concreto perto do muro e eu chutando com força os seus sapatos e perguntando se naquela loja “tinha meia pra homem” e você respondendo “sim, mas essa era a última; pra baranga ainda tem, quer o telefone?” e a gente rindo mais e elogiando a bunda perfeita da menina que até meia hora atrás estava pendurada no seu pescoço e agora tentava uma partida de vôlei solitária com a parede.

Segredinho meu que você provavelmente já conhece: apesar dos protestos fingidos, eu sempre apreciei o modo maquiavélico com que você jogava farelos para a minha auto estima ao mesmo tempo em que cavava o buraco onde ia enterrá-la dali a pouco. Com treze anos eu não me incomodava em esperar pela sua mão para me tirar lá do fundo depois. Com o passar do tempo eu fui me acostumando aos desenhos que fazia nas paredes do buraco e por muitas vezes  até preferia ficar lá dentro mesmo, arte-finalizando à mão a representação gráfica do meu fracasso, a sair de lá e ter que encarar a realidade sem direito a retoque. Com o passar do tempo o buraco virou a minha casa, a minha zona de conforto ilusória e eu precisava me esforçar demais para querer sair dele. Com treze anos eu só precisava chutar as suas botas.

But there’s a bud, there’s a bulb, It will be blooming

Impera por essas bandas uma imensa falta de vontade. Falta de vontade de internet, mais especificamente, mas também falta de vontade de uma imensidão de coisas de modo geral. Um daqueles surtos esporádicos de apatia que, se por um lado significa menos vontade de realizar coisas, por outro significa mais tempo disponível para apreciar as que já estão prontas – inclusive para diminuir a pilha de livros por ler e DVDs por assistir. :)

Mas continua a vontade de gastar dinheiro e outro dia eu achei essa canequinha original Cath Kidston por duas libras na Home Sense, e meu café ficou mais colorido:

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A primavera desse ano começou ontem e hoje já pude sentar no jardim, a grama crescida por conta das temperaturas subindo mas nem tão alta ainda por conta da estiagem. Fiquei largada lá com um livro e o celular, lagarteando ao sol e lendo as novidades do mundo via Facebook – outra rede social que estou seriamente considerando abandonar por conta do spam de bobagens. Mas foi lá que eu descobri que o Playcenter ia fechar (há controvérsias acerca dessa informação). O Tivoli Park do Rio encerrou atividades em algum ponto dos anos 90, deixando para trás a lembrança de tardes de sábado dentro do Chevette do pai de uma amiga cruzando a Avenida Brasil em direção à Zona Sul, ouvindo a Transamérica FM em estado de antecipação histérica. Quase melhor do que o parque em si.

Na viagem para o Playcenter minha mãe chorou ao descer do ônibus, tendo mentido para a mãe neurótica da coleguinha que me acompanhava que ela também iria no passeio: “Ela pegou a minha mão e me fez prometer que eu cuidaria da filha dela como se fosse a minha”, choramingava mamãe, e eu e a coleguinha rindo porque, afinal de contas, tudo o que a gente queria era se divertir numa excursão com gente da nossa idade – dificilmente muito a se pedir aos dezessete anos. O frio de sampa (nove graus), inédito para os nossos dedinhos cariocas, congelou as articulações e foi um sufoco tirar as moedas da bolsa pra pagar o fliperama. O menino bonito da turma viajou junto e eu tentei apresentá-lo à tal coleguinha, já que se eu não ia ter mesmo aquela sorte que pelo menos minha amiga tivesse. Falta de auto estima mascarada de generosidade, taí a minha adolescência resumida em uma atitude.

A coleguinha acabou contando a verdade para a mãe e paramos de nos falar quando ela conseguiu um emprego e namorado fixo. Me pergunto se ela um dia cumpriu sua parte na nossa promessa, feita ao fim do passeio, de voltarmos ao Playcenter um dia. Eu, pelo menos, nunca mais voltei.

Spring – Tracy Chapman

My only friend through teenage nights.

Outro dia me perguntaram se eu costumava ouvir rádio aqui.
Atualmente bem pouco. De vez em quando a Absolute, mas quase sempre são as playlists do 8tracks, ou faixas escolhidas no Spotify ou Groveshark que me fazem companhia. Eu ouço música com frequência; quase todos os dias. Tenho momentos de deixar rolando como trilha sonora, sem prestar atenção, até sentar no escuro absorvendo cada nota, arranjo e frase de uma música favorita. Quando eu era criança gostava de sentar numa rede que tínhamos na varanda e passar a tarde inteira ali, usando a rede como se fosse balanço (meus pés quase batiam no teto) e cantando junto.

Eu gostava de ouvir rádio no Brasil. Não sou da “geração Napster”; quando música começou a ser encarada como algo que você pega de graça quando quiser, como se fosse folheto de supermercado, eu já era quase adulta. A seleção de músicas de fundo para a minha primeira infância dependeu do gosto musical um tanto quanto errático dos meus pais. Eu ouvia os discos que eles tinham em casa, uma curadoria super eclética que incluía Secos & Molhados, trilhas de novela, Bezerra da Silva, Saturday Night Fever e os Sambas de Enredo das Escolas de Samba do Rio de Janeiro de 1977. Num momento eu ouvia encantada os versos de Rosa de Hiroshima e no momento seguinte cantarolava Malandragem Dá Um Tempo sem entender muito bem o que estava sendo enrolado ou acendido naquela letra. E imaginava o dia em que, assim como a Yvonne Elliman, eu poderia dizer para alguém que “if I can’t have you, I don’t want nobody, baby”. Só que não diria, é claro. Essa tal de Yvonne dava muita bandeira e eu ia ser cool.

E aí eu descobri o rádio e tudo mudou. Eu podia ouvir rock o dia inteiro na saudosa Fluminense FM, pop na já citada Transamérica e flashbacks dos anos 50, 60, 70 e 80 na Rádio Mundial AM – programa “Jovem Também Tem Saudade” (y u so brega). Jovem? Oito anos e eu já sentia saudades doloridas de bandas que deixaram de existir décadas antes de eu nascer.

A partir dali o céu era o limite. Ou melhor, o limite era a vinheta que anunciava o começo da Voz do Brasil, às sete da noite. “Em Brasília, dezenove horas” dizia a voz cavernosa do locutor, que depois foi substituído por um cara mais animadinho e eu odiei (e quando eles deram um “arranjo tropicalista” ao Guarani de Carlos Gomes? Essas coisas deviam ser proibidas). “Hora do Brasil, Hora de desligar o rádio”, todo mundo dizia e eu concordava. Hora de tomar banho e ir assistir a novela esperando o jantar.

Sinto falta dessas rádios (e tantas outras) que ou encerraram atividades ou mudaram completamente com o passar dos anos. Algumas foram compradas por igrejas evangélicas. É claro que o mundo se transformou e as pessoas migraram para a internet. Aqui elas podem ouvir o que realmente querem quando quiserem, ao invés de ter jabá enfiado goela abaixo pelas gravadoras que pagam pra fazer os DJs tocarem o que elas querem que venda. Uma pena, porque rádios nem sempre foram assim tão ruins e nem precisam ser. Minhas rádios favoritas me permitiram conhecer minhas bandas e artistas preferidos e me apaixonar por eles. Serei eternamente grata.

De certa maneira acho que tive sorte por ter crescido em outra época, por poder ter experimentado a alegria inesperada de reconhecer os primeiros acordes da música mais bonita do mundo daquela semana começando a tocar no rádio e correr para ouvir, ao invés de apenas digitar o nome da faixa no YouTube e dar quantos replays quiser. Ou então passar a tarde plantada do lado do rádio, com a fita k-7 no deck e as teclas REC e PAUSE a postos, esperando para gravar uma música – torcendo para que tocasse inteira sem que o locutor começasse a falar no fim. Ou até mesmo conseguir gravar só um pedacinho de uma canção “rara” que quase nunca tocava, e passar dias dando rewind e play naqueles 20 segundos, inalando cada nota daquele tesouro sonoro como se fosse oxigênio – até que a fita arrebentasse.

Prefiro as facilidades de hoje, sem dúvida. Nostalgia de ter trabalho extra, passar sufoco e se frustrar? Nope. Mas foi bom poder ter tido as duas experiências, até para dar valor ao que temos hoje. E para exibir o troféu de desbravadora. Torrent é para os fracos. ;)

The first ones.

Não lembro de ter feito amigos no pré-escolar, mas o primário começou bem. Numa escola particular, porém de má reputação e numa parte menos afluente de uma cidade pobre. No início minha mãe me levava todas as manhãs, no fusquinha azul que depois foi roubado. Mas mesmo antes de alguém arrombar o portão da casa e levar o carro (sob as barbas do cachorro adormecido que depois, segundo meu pai, não teve sequer a decência de aproveitar o portão aberto pra fugir) eu já tinha começado a dar meus primeiros passos solitários no mundo. Deixava com sacrifício o casulo de cobertores e caminhava o quilômetro que me separava da escola com sapatos de fivela, saia plissada, blusa branca de tergal e o emblema do Centro Educacional pregado à mão no bolsinho.

Exceto quando chovia. Aí eu ganhava carona, pois a rua da escola virava um pântano com a lama que descia dos barrancos. E as crianças que moravam neles desciam junto porque precisavam estudar pra que um dia, quem sabe, pudessem deixar aquele lugar no passado. Desciam quase da mesma cor do barro, as calças respingadas de lama, os pés dentro de sacos plásticos presos com elástico para não sujar os sapatos, preciosos por serem únicos.

Karla Danielle era a típica gatinha da classe: alta, longos cabelos castanhos e um sorriso eternamente iluminando o seu rosto bonito. Um dia me defendeu de outras meninas prestes a me excluir de uma brincadeira no recreio: “o elástico é meu e ela é minha amiga, vai brincar sim!”. Fiquei surpresa pois há tempos a gente não comia merenda juntas, o que me fez concluir que talvez já não fôssemos mais tão amigas assim. Pais separados, ela morava com a mãe e o irmão caçula numa casa amarela de esquina, perto da minha. Eu a chamava para tomar banho de piscina; ela entrava na água e submergia inteira antes do cabelo (os fios oleosos ficavam boiando). Engravidou cedo, ficou menos bonita e mais triste com a idade. Mas da última vez que a vi ela estava empurrando a segunda filha numa bicicletinha de criança, num daqueles sábados onde a prefeitura fecha o trânsito das ruas para o lazer dos moradores. Me viu de longe e me jogou um beijo. Nem tive como agradecer depois pela gentileza de me oferecer, no meio de tantas mudanças na minha vida e na dela, o mesmo sorriso de sempre.

Renata (ou Renatinha, por conta do tamanho) era a líder nata. Óculos, feições asiáticas, “cara de fuinha” segundo a crueldade da minha mãe. Autoritária, mentora de planos mirabolantes, representante de turma, juíza de brigas e pendengas, ela sempre tinha o que dizer e, vindo dela, tudo era importante. Um dia correu o boato de que ela estava com piolho. Depois das lendas criadas por adultos para aterrorizar os pequenos de que “piolho se trata raspando a cabeça!”, as outras crianças mantiveram uma distância segura. No dia seguinte ela apareceu com o cabelo cortado curto, bem curtinho mesmo, mais curto ainda que o do irmão gêmeo, Fabiano, que estudava na mesma classe e tinha o cabelo num corte tigelinha. Mas como se tratava da Renata ninguém teve coragem de tocar no assunto. Ela também nunca disse palavra, embora vez por outra levasse as mãos até a nuca como se esperasse encontrar um rabo de cavalo ali, para então recuar desconcertada. E o cabelo curto da Renatinha se tornou assunto banido sem que ela precisasse pedir, nem mesmo reconhecer o respeito implícito no nosso silêncio.

O Ivan era um loirinho bochechudo, com cara de alemão de meia idade, olhos verdes miúdos, bastante tímido e que sentava na lateral direita da sala de aula – me surpreendo por lembrar disso até hoje. Ele usava uma camisa uns dois números abaixo do que devia e a barriga estufava os botões quando ele  sentava. Até o sapato era de adulto, numa época em que praticamente todos os meninos (e as meninas não adeptas do sapato boneca) usavam tênis. Nada de bullying, no entanto. Ele era apenas diferente e isso não era considerado um crime. O Ivan me deu uma bolinha de naftalina dizendo que era bala, e eu aceitei e pus na boca. Ele foi parar na sala da diretora, meio perplexo porque “achei que ela fosse perceber”. Bom, eu só percebi que era meio burra (e esfomeada). Um dia em que minha mãe viria me buscar mas se atrasou, eu e o Ivan ficamos sentados no pátio da frente da escola, dividindo com precisão quase aritmética o conteúdo de um pacote de biscoitos (dessa vez eu averiguei) e discutindo algo muito importante até o fusca azul aparecer na esquina.

A Luciana era a gordinha que sempre tinha as coisas mais legais. Nos anos 80 ter um estojo de canetinha com 72 cores era garantia de popularidade. Cá pra nós eu achava um desperdício, já que ela não sabia usar; ignorava o seu (também fenomenal) kit de lápis de cor e usava as canetinhas pra pintar. Eu quase infartava vendo a a Leila forçar a ponta da hidrocor no desenho manchando a parte de trás da página. Poucos tempo depois do começo das aulas metade das canetinhas já estava falhando e logo era preciso comprar outras. Uma vez ela me deu as canetinhas do estojo velho que ainda estavam boas. Pediu que eu abrisse as mãos, despejou as canetas e saiu sem dizer nada. Além desse momento, que eu nunca soube explicar direito, nós nunca fomos especialmente amigas. Mas concluí que existem vários talentos no mundo e que não há nada de errado em não dominar alguns.

A Elaine parecia uma boneca de porcelana, na beleza e na fragilidade. Cabelo loiro curto e encaracolado, rosto melancólico e pálido, olhos claros enormes e fundos e a saia um tanto longa demais. Sempre muito bem comportada, tirava boas notas, usava bolsa tiracolo ao invés de mochila e falava baixo. Tinha sempre no pescoço um cordãozinho fino (“é ouro de verdade”). Jamais corria no recreio e se cansava nas escadarias. Um dia passou mal na aula e então apareceu na escola uma moça bonita, pálida e melancólica, que pegou a Elaine pela mãozinha branca e levou embora. Ela não veio estudar no dia seguinte, nem no outro, nem na outra semana. Mais tarde algumas crianças ficaram sabendo pelas mães que a Elaine ia ficar um tempo afastada. “Que sorte!” pensamos nós, invejando as semanas extras de férias. Só que as semanas viraram meses. Elaine nunca mais voltou para a escola. Nem para a nossa, nem para nenhuma outra.

Clayton era o arquétipo do moleque insuportável. Dentuço, tinha um cacoete que o fazia estalar os lábios constantemente, o que eu achava irritante e meio ridículo. Ele também balançava a cabeça para trás e para a frente, num movimento parecido com o que certas aves aquáticas fazem ao andar – o que lhe garantiu o apelido de Ganso. Clayton colava chiclete na cadeira da professora, falava palavrão, se metia em brigas e usava espelhos pra tentar ver a calcinha das meninas. Hoje penso que o mau comportamento tenha sido a maneira que ele encontrou de se colocar acima das gozações que sofria. Ele sentava atrás do Ivan, e apesar do contraste de personalidades, eram os melhores amigos. Certa vez ele fez uma piada comigo e eu respondi “legal você fazer com os outros o que não gosta que façam com você!” e ele ficou um tempão calado como se examinasse a própria consciência.

Michel era o Pequeno Príncipe. Saído das páginas do Exupery. Bonito e estudioso, mas nada sociável. Ele tinha uma daquelas réguas paraguaias made in taiwan, com desenhos que se moviam. As meninas eram fascinadas por ele. Eu era fascinada pela régua. As mais afoitas puxavam papo (que ele retribuía com grunhidos) ou penteavam seus cabelos com os dedos (que ele retribuía com um empurrão). Insuportável. Jurei jamais lhe dirigir a palavra. E assim foi, até o dia em que ele chegou atrasado e sentou na única cadeira disponível – do meu lado. Foram dez minutos de desconforto até que a lâmpada se acendeu: aproveitando a proximidade pedi a borracha emprestada (não tive coragem de pedir a régua). “Péra”, ele disse. E me entregou assim que terminou de usar. O sucesso inesperado alimentou minha coragem: “err… a régua também?”. Ele levantou os olhos do caderno e me olhou e eu achei que fosse virar pedra. “Tá”. Peguei. E perdi vários minutos girando a dita cuja nas mãos, vendo as princesas, pôneis e florzinhas se mexendo no fundo cor de rosa, e de repente me ocorreu: “a sua régua é de menina”. Ele me olhou meio espantado, meio puto. Eu comecei a rir. Ele me tomou a régua, mas riu também. E no meu aniversário de 15 anos comeu pipoca e bebeu guaraná na minha sala.

Mas no último ano do primário alguma coisa aconteceu. Deve ter acontecido, não lembro. Só sei que de repente me vi sozinha, sem amigo nenhum a não ser a Claudinete. Que quase não ia à escola; dava o ar de sua graça umas três vezes por semana. Eu não sabia então, mas fiquei sabendo depois que seus pais estavam tendo dificuldades para pagar a mensalidade. Eu ficava perdida quando ela não aparecia. Todos os dias chegava cedo, me instalava na cadeira e ficava encarando a porta. E era como se um rebanho de mamutes tivesse se levantado das minhas costas quando a cara morena, o cabelo curto e crespo e os braços magros segurando um caderno e um estojo de pano (Claudinete não tinha mochila) entravam por ela. Mas as entradas iam rareando cada vez mais e se tornavam cada vez mais frequentes os dias em que eu esperava em vão, a ansiedade escalando velozmente cada minuto. Quando a professora por fim se sentava iniciando os trabalhos do dia, eu dava a esperança como perdida. Lembro do dia em que um tempo depois do começo da aula, já absorta na leitura, senti a mão magra e gelada da minha amiga apertar o meu ombro. Claudinete desabou na cadeira, sem fôlego pela corrida para compensar o atraso, sem saber que me salvava a manhã com seu riso de dentes grandes e brancos.

A ele seguiram-se várias semanas de sumiço absoluto em que fui aos poucos me dando conta de que ela não ia mais voltar. Não voltou. Depois de me conformar eu aceitei meu destino: passar o recreio sozinha na sala de aula ou descer e vagar invisível pelo pátio, pisando incerta o chão de pedrinhas, vendo a infância dos outros acontecendo e com a sensação resignada de que a minha estava prestes a acabar.

Mudei de escola no ano seguinte.

Lolla, 7, pronta para entrar no palco na festa junina do Centro Educacional.

Dos males o menor

Ontem à noite eu estava percorrendo as ruas do bairro onde passei a infância no Street View do Google (uma das melhores invenções da humanidade, logo depois da eletricidade, Coca Cola e penicilina, nessa ordem). E eu queria descrever pequenas coisas em detalhes, como o fato de que a casa em que nasci continua sendo verde, só que em outro tom, que a padaria da esquina virou uma drogaria vendendo cremes de cabelo barato ao invés do melhor bolo de fubá do mundo e sequilhos ruins, que o banco de praça onde sentei com meu melhor amigo e despejei sobre ele cinco anos de sofrimento e self loathing não existe mais porque a praça não existe mais, que a moça solteira e feia que dava aulas de violino eu não sei se ainda existe porém a placa com o telefone dela ainda está no mesmo muro, que o nosso bar preferido continua no lugar e aberto e na calçada em frente o mesmo buraco no cimento que nos proporcionou quedas e risos hoje certamente tomba outros bêbados e que eu não consegui achar a casa onde o F. morava porque o Street View não incluiu a rua dele e eu fiquei tentando fazer com que o bonequinho amarelo subisse a ladeira em vão.

Mas eu não vou dizer nada porque meia hora depois o esforço de acompanhar as imagens danificou meus olhos, eu fiquei vendo escotomas cintilantes pelo resto da noite e fui dormir assustada achando que ia acordar cega. Acordei com dor de cabeça.

Memories 1.0

Assistir a esse vídeo foi estranho.
1998. Mas eu ainda levei mais um ano para finalmente ter internet em casa. Conexão discada, e lembro de ligar para uma amiga e tirar dúvidas estúpidas durante o processo (“não está dando certo! tô ouvindo um barulho de fax ao invés de internet!”). Lembro do amigo técnico que veio ajudar e me apresentou aos newsgroups – uma praga que me consumiu madrugadas inteiras numa prévia do que hoje seria nomeado “xingar muito na internet”. Lembro dos sites de anime e de salvar uma quantidade assustadora de imagens em bitmap para o hard drive de, sei lá, 210MB. Lembro de instalar programas em disquete (no caso do windows, por exemplo, uma caixa inteira deles), de comprar CDs com joguinhos para DOS e programinhas inúteis, de receber CDs de instalação da America On Line em casa e jogar todos fora (ou usar como descanso para copos), de trapacear para passar de fase em Doom e Heretic, de trocar skins para Winamp com meus amigos, de usar o Altavista para fazer buscas (e do saudoso tempo em que as buscas traziam SITES, não blogs ou lojas), de fazer conta de email no BOL, de baixar vários discadores de internet para testar um quando o outro estivesse busy. Do “uh oh” no ICQ e de não entender quem usava Aol Instant Messenger. De fazer um blog no Blogger e ficar perdida no espaço, sem saber direito o que escrever ou se mais alguém leria. De descobrir um portal de blogs brasileiro chamado Desembucha que mudaria seu universo e ver, a partir dali, a internet como então conhecíamos entrar num declínio sem volta.

Evolução, alguns dizem. E eu só me arrependo por nunca ter feito uma conta no IRC, e lamento que o uso da palavra “internauta” tenha caído em desuso. O que temos pra hoje? TWITTOSFERA.

I rest my case.

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Gorila Gum

Não resisti a esses chicletinhos com cara de vintage numa loja de doces aqui em Jersey:

Houve um tempo em que chicletes vinham assim, em pacotinhos coloridos individuais que pareciam ter sido embalados à mão. Alguns vinham com figurinhas dentro, às vezes decalques de raspar que a gente podia passar para capas de caderno. A inesquecível coleção Ploc Monsters, com decalques de monstros pavorosos (bom, pelo menos para as crianças) e cada um tinha um nome. Paula, Alexandre, Carolina, Patrícia, Gustavo, Henrique… Quanto mais feio o monstro, mais chochada a criança era, e os bordões “o seu monstro é muito mais feio que o meu!” ou “até que essa monstra Luciana é bonitinha… Pelo menos mais bonita que a própria Luciana!” se espalhavam pelos playgrounds e pátios de colégio.

Quem diria que chiclete um dia já serviu de veículo pra bullying?
A melhor coisa da minha infância? Nunca acharam um monstro Ploc com o MEU nome.