Winter is going.

Inverno beirando o ameno demais. Luz matinal, check. Temperaturas na casa dos dois dígitos, check. Cardigans no lugar de casacos, check. Luvas ainda na gaveta, check. Neve, não-check.

Não que o gato esteja reclamando. Manta felpuda, casa quentinha e barriga cheia? Check, check and check.

Late Summer

As flores já encerraram o expediente 2019 – a não ser pelas dálias nos jardins cuidados por mãos mais dedicadas. Eu não tenho dálias plantadas esse ano (exceto uma, num pote) porque fiz uma opção baixo-risco: nada de flores que abrissem o apetite das lesmas. O dinheiro que não desperdicei na loja de plantas comprando lanche de molusco foi deixado na Ikea e nas mãos do senhorzinho simpático que cobriu parte da grama com o decking. Em cima do qual eu pus mesa e cadeiras novas compradas na liquidação da Marks & Spencer que são lindas e me fazem, pela primeira vez em anos, ter vontade de sentar do lado de fora – mesmo na companhia de abelhas, aranhas e borboletas. Victory, my friends.

Fora dálias, eu também não tenho fotos de nada disso (ainda) porque estou empenhada em sobreviver à estadia de mamãe e sem tempo para respirar porque ela fala o dia inteiro, fica deprimida se deixada por conta própria por mais de 5 minutos, não consegue fazer muito sozinha (desisti de tentar ensinar como baixar as persianas e ajustar a temperatura do chuveiro) e quando cai a noite eu só tenho forças para tomar banho e dormir. Mães de bebês têm toda a minha solidariedade.

Hoje choveu o dia inteiro e pela primeira vez no verão esteve escuro o bastante à tarde para que eu conseguisse acender velas. As noites começam a se alongar. Já vejo as folhas das water chestnuts mais ansiosas trocando de cor e semana passada abóboras de vidro e esqueletos de polipropileno já ocupavam prateleiras de lojas. Todas as manhãs abro as janelas esperando sentir aquele ar frio e áspero de mudança de estações como quem busca uma maçã na geladeira em que cravar os dentes com o prazer de fome saciada.  Summer’s last act has kicked in. I can’t wait for September.

Hectic Summer days.

O mês temido por ser longo começou há cinco minutos e já estamos às vésperas do quinto dia. A pressa pelo término de agosto, a obsessão por virar a página do calendário, “to wish away time”, a pressa de morrer que eu nunca entenderei. Porque é tudo tão pouco. O mês, o ano, a década. A vida. Eu tenho tanta coisa por fazer e tanta coisa por não fazer, e as duas demandam tempo. Mês curto eu me sinto roubada. E não adianta registrar ocorrência.

Julho passou como as nuvens, com máxima de 38 graus (!) e deixando pelo caminho nuvens de pó. Aquelas que ficam depois que se guardam as ferramentas e o homem da van leva embora o radinho que tocou pop 80s durante uma semana na soleira da minha janela (tive que perguntar qual era a estação depois que tocou Donna Summer). O gato pesou 5.3kg na visita anual ao veterinário. Um dos meus melhores amigos anunciou noivado e eu estou apreensiva. A moça parece ótima e a companhia lhe fará bem, mas justo agora que nosso well oiled team of three se reuniu novamente graças aos desígnios da vida e das cidadanias européias ele vai… contrair um casamento convencional? Um capítulo da minha vida se fechando com o pé na porta. E tenho a impressão de que meu dedinho ficou preso ali. Ouch.

Julho terminou com um começo. Trinta dias de visita da velha. Dessa vez o velho não veio junto e isso é um estranhamento. A morte é um “mas como assim não vem nunca mais?” que se repete até que também… nunca mais. Já comemos na churrascaria turca, já fizemos farofa e comprinhas em brechós, já brigamos por motivos fúteis, já visitamos jardins onde Vita Sackville-West plantou gerânios e já enguiçamos com o carro no meio de uma auto-estrada no condado de Kent. O socorro chegou enquanto eu colhia cow parsleys secas à beira da estrada para pôr em vasos. Minha mãe dormia no banco traseiro, embalada pelo zumbido dos carros passando a mil na A21. Acho que os 38 graus não vão se repetir esse ano.

A cozinha está 95% pronta, mas ainda não tenho fotos de tudo; apenas alguns vignettes de detalhes que também já não estão mais como aparecem aqui. Tudo muda muito rápido. O mês, o ano, a década. A vida.

Blooming Lovely.

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I don’t know what’s prettier; the cherry blossoms on the trees or the petals when they fall. The streets were covered in puddles of pink today, like tiny colour satured seas of beauty. It didn’t last; the windy rain came and washed all away, untill it all starts again in 12 months. It’s bittersweet to say it, and it feels risky, because I do not know if I’m going to be around next year. Like when my old neighbour went to India for medical treatment and never returned. And when february brought the next season of snowdrops to his front porch I felt sad that he wouldn’t see them, that few months before he didn’t know he wouldn’t live to see them and with the realisation that every spring could be our last.

The way beauty changes and morphs into different things, though. It’s like some of my oldest friendships, who have changed and evolved and grown into different things just like we have changed, evolved and grown into different people, but the love and the reasons why we’re in each other lives remain consistent. I’m grateful for every year with the same well loved faces around me, and I dearly hope they’ll be around for many more.

Spring Cleaning

Às vezes o minimalismo que você precisa praticar não se resume a eliminar coisas tangíveis, mas também atividades, hábitos e atitudes. Fevereiro foi o mês de tirar o foco das gavetas e voltá-lo para o meu dia-a-dia, editando as coisas com que escolho ocupar meu tempo e pessoas que deixo entrar na minha vida. Resolvi aposentar alguns “hobbies” que não estavam mais proporcionando o mesmo nível de satisfação, me deletei de alguns fórums/redes sociais e doei livros que havia começado mas sabia que não tinha mais interesse em terminar – e assim desocupei não apenas o espaço que eles ocupavam nas prateleiras, mas também o meu tempo.

Essa é a raposinha que encontrei tomando sol no jardim há algumas semanas; consegui fotografar com o zoom pelo vidro da janela da varanda. Parecia tranquila, mas claramente doente; as falhas de pêlo nas costas são sintoma de mange, uma doença contagiosa em mamíferos e que infelizmente costuma ser fatal em raposas se não houver tratamento. Pensei em contactar algum santuário para vir buscá-la, mas fui depois informada de que relocar esses animais é um processo difícil e pouco aconselhado.

Postei um vídeo da raposa no instagram e logo surgiram diversos especialistas e entusiastas que sequer viram uma raposa fora do zoológico me explicando em termos pouco simpáticos que eu deveria tê-la adotado ou levado ao veterinário. Como se eu tivesse como capturar e como se animais silvestres dessem excelentes bichinhos de estimação. Nenhum serviço de proteção recomenda domesticar raposas; elas destroem a mobília, roem fios provocando risco de curto circuito/incêndio e por fim acabam descartadas em santuários quando já não conseguem mais ser devolvidas à natureza e sem garantia de aceitar a vida em captividade. Muitas vezes não resta outra alternativa senão a eutanásia.

Por causa desse episódio eu finalmente resolvi restringir replies às minhas stories apenas para pessoas que sigo, o que obviamente chateou alguns seguidores porque perdi muitos. Não sei se perceberam que ainda é possível me mandar mensagens usando o link no perfil ou se não gostaram de ter sido colocados no mesmo balaio que os grosseiros. Mas quase todos os dias em que havia atualização das stories eu recebia pelo menos uma mensagem desagradável, e isso parou. Ok, é chato perder seguidores, mas eu nunca vou ser popular naquela rede; meu feed é confuso, infrequente e não tem um “tema”. O que me interessa é manter um ambiente saudável, e dificultar um pouco as mensagens impulsivas de estranhos parece ter dado certo. Sorry about the colateral damage.

Consegui com o santuário um remédio para pôr no jardim, misturado à comida. Vamos ver se funciona. Porque é assim que se resolvem problemas: com informação e seguindo procedimentos corretos.

A outra novidade do período foi a spring roadtrip de 2019: Mônaco e sul da França – parte dos alpes e a riviera francesa, que eu ainda não conhecia. Visitamos Grenoble, Cannes, Nice, St Tropez, Arles e Laguiole; tirei Biarritz do roteiro por conta da distância, mas uma noite cruzei a fronteira pra Itália e fui jantar em San Remo. O principal evento foi o clima: tivemos dias de chuva que arruinaram planos, dias de sol em praias de areia e de pedrinha, dias de neblina e frio onde dispensamos turismo em favor de lareira e vin chaud, dias de violentas ventanias que quase me arrancaram do chão, dias sem uma única nuvem num céu interminavelmente azul. Em certo momento chegou a nevar um pouco na estrada. Quase não usei a câmera porque well, blogs are kinda dead, aren’t they. Mas acho que ainda tenho ânimo pra fazer uma seleção das fotos das stories para deixar aqui. Maybe soon, maybe never. Let’s see.

Encontramos esse hotel abandonado nos alpes entre Grenoble e Monaco, no meio da route Napoleon. O vento estava inacreditável, a sensação térmica devia estar na casa dos negativos e eu lá, de pulôver primaveril e canelas expostas à hipotermia sofrendo pela minha arte. Risos. Mas as fotos da festa ficaram ótimas e me senti tentada a ligar pro telefone ali na placa, perguntando o preço. Imagina transformar esse hotel numa casa incrível? Cercada apenas de montanhas e céu, o mar da Côte d’Azur à (pouca) distância. E nenhum vizinho, porque como já dizia aquele famoso influencer francês, “l’enfer, c’est les autres”. E eu concordo tanto que escrevi isso no braço.

Sweet heart

Impromptu valentine’s day celebration. Mesmo evitando restaurantes lotados com decoração cafona, menu temático e casais sorvendo prosecco quente e arrotando ressentimento, essa mini trip pela floresta com direito a chá e bolinho inesperado em formato de coração hit the spot. Happy Valentine’s.

St Sebastian’s Day

Dia 20 foi dia de São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro e santo de devoção do meu pai. Que não era uma pessoa religiosa e não frequentava igrejas, mas com mãe candomblecista aprendeu que dentro do sincretismo era filho de Oxóssi. Ele sempre usou essa correntinha de ouro com uma imagem do santo como pingente e só tirava para dormir; eram inseparáveis, Bastião and dad.

Todo dia 20 de janeiro ele me sentava no banco do carona de um carro qualquer (passamos por fuscas, fiats, escorts e chevettes) e íamos juntos até a igreja de São Sebastião mais próxima. Minha mãe não se animava a ir, e depois que virou evangélica se recusava terminantemente – it was our thing então, programa anual de pai e filha a peregrinação ao bairro vizinho para acender uma vela, pegar uma fitinha do santo pra amarrar no pulso, agradecer a sorte e refazer promessas.  A igreja ficava no alto de uma ladeira e me lembro de um ano em que o carro pifou no meio da subida – por incrível que pareça bem em frente a uma oficina mecânica. Milagre de Saint Sebastian, certeza.

Ele foi todos os anos, enquanto pôde. Minha avó dizia que meu pai era de uma firmeza inatacável, que “o barco dele não andava, mas também não afundava”. Pois eu sempre achei que apesar de não ter dado nenhuma volta ao mundo ele até que andou sim, e de fato não afundou; ele se livrou de um monte de furadas tensas ao longo da vida – talvez por sorte, talvez por ser safo, talvez por destino. Eu gosto de pensar que teve um dedo de Tião nisso.

Papai viveu uma vida longa, confortável e livre de doenças até quase o fim. Viajou bastante, comeu o que quis, teve amigos, amores, desafetos, duas filhas, dois netos e aventuras que renderam muitas histórias para contar. A correntinha agora está comigo; não a uso muito por medo de perder, mas fica sempre perto de onde estou.

Valeu sebs, por cuidar bem dele. E se tiver um tempinho, cuide agora de mim também. Aquelas velas e fitinhas todas durante todos esses anos não podem ter sido em vão.

Love you long time,

Lolla

Happy Birthday

Minha segunda visita ao Ritz, dessa vez no meu aniversário e para experimentar o famoso chá da tarde no Palm Court. O salão é realmente lindo, pegada bem Louis XVI (inclusive o banheiro; olha aquele sofá rosa) e eles tiveram a idéia genial de contratar um monte de mocinhos made in italy para atender e servir, com aquela simpatia que só italianos têm dentro da hospitalidade. Basicamente passei duas horas rodeada de rapazes bonitos com o sotaque do inspector montalbano me empurrando carboidratos. “Tem certeza que não quer mais bolo? Fico triste vendo o seu prato vazio.” This is the life I deserve to live.

Tudo gostoso e correto, mas bastante tradicional e sem invencionices. O que eu não sabia e me surpreendeu é que tudo ali é em sistema refil: dos sanduíches aos scones os garçons continuam servindo. Os sanduíches eram clássicos e simples: ham + mustard, salmon + cream cheese, cucumber, egg rolls, etc. Nada daquelas novidades gourmetizadas do Sketch. Os docinhos eram ok e eu gostei especialmente do macaron de framboesa. A decepção infelizmente ficou por conta dos scones: textura de pãozinho e GENTE. scone. não. é. pãozinho. Um fracasso inesperadamente trágico, que foi compensado com o trolley de bolos que veio em seguida – esse rum baba estava FANTÁSTICO e eu teria comido fácil outra fatia.

Enjoy the ride.

o ano novo terminou com pub, cerveja, lasanha, delivery e eu dormindo no sofá de alguém e o ano novo começou com pub, roadtrip, castelos de arquitetura bizantina em pleno condado de suffolk e uma viagem frustrada em busca de carboidratos; a padaria estava fechada, mas o pôr do sol valeu a viagem.

é o que penso quando faço uma mini retrospectiva de 2018. não perdi ninguém, não tive notícias ruins e um enorme peso saiu dos nossos ombros. muitos planos frustrados por motivos alheios à minha vontade e indiferentes aos meus esforços. uma bolinha amarela de pêlos, miados e fome que enche meus dias de risadas e fofura. muito trabalho, pouca diversão. mas carinho e conforto e um abraço garantidos ao chegar em casa e a companhia das pessoas que fizeram essa volta em torno do sol mais suportável – às vezes, quase memorável.

valeu a viagem. e só.
mas agora é mudar a rota porque, depois de um longo caminho no escuro, o sol finalmente saiu. os caminhos estão abertos. enjoy the ride.

Nostalgia is a bittersweet drug.

toda segunda feira pela manhã o celular informa que o meu “tempo de tela” vem caindo a cada semana. o desktop ainda é ligado todos os dias, mas ao contrário das 20 tabs de costume eu deixo abertas no máximo três ou quatro – as necessárias para trabalhar, o pinterest e o reddit. tenho evitado redes sociais desde outubro; o clima pesado daquela tenebrosa eleição já se dissipou, mas o bode adquirido de pessoas e atitudes (que não poupou lado algum do espectro político) continua por aqui, pastando absorto. e estupefato. no que foi que nos transformamos?

ao contrário dos dois anos anteriores, 2018 não me trouxe nada de ruim. mas também nada de bom.

ok, exceto o gato 2018 não me trouxe nada, e talvez seja por isso que eu esteja um tanto quanto perplexa observando o calendário avançar para a última casa do zodíaco enquanto ao meu redor os projetos de tudo o que eu pretendia realizar nesses doze meses se acumulam em pilhas intocadas. estariam cheios de teias de aranha caso o gato não tivesse tomado para si a tarefa de desinfestar a casa do modo mais orgânico possível. burp.

a sensação de fracasso é desagradável, e para evitar preencher o vazio com comida ou auto-piedade eu trabalhei um bocado e voltei a costurar. as sextas feiras sentadas em cafés com o objetivo de discutir formalidades e que terminam com a cliente imitando flatos vaginais com a ajuda de um canudo de bubble tea trazem risadas e uma estranha sensação de acolhimento. os dedos furados de agulha ao som de wolf alice viram capas de almofadas, cortinas, blazers para bonecas e a conhecida sensação de trabalho bem feito. de projeto finalizado. de algo tangível que não havia antes e agora graças a mim existe. at least something. this is good.

tenho passado muito tempo nesse quarto. removi alguns móveis, incluí outros (tenho tido sorte em brechós, e esse foi o ano de trocar a ikea pelo gumtree), tentando deixar o espaço com menos jeito de escritório (o que ele é) e mais cara de quartinho de costura de avó (o que eu gostaria que fosse). me sinto como uma ursa polar preparando a toca para longos meses de hibernação. é difícil fazer meus amigos solares entenderem o quanto essa época me contempla e faz bem; os demais ursos, no entanto, sacodem a cabeça numa compreensão cúmplice – if you know, you know.

ainda muito clutter a ser eliminado. já comprei caixas gigantes de plástico transparente; falta a coragem para enchê-las e despachá-las para o sótão. desisti da idéia inicial de despachá-las para o lixão comunitário porque minimalista sim, desapegada nunca. 2018 tem sido o ano de buscar e reencontrar (ou tentar emular) pedaços de mim mesma de 10, 20, 30 (!) anos atrás. tem esse verniz de encantamento nas lembranças mundanas de outrora que parece deixar resíduos em tudo o que é concreto aqui hoje, e que precisa mais do que nunca desse brilho.

tenho passado muito tempo em casa observando as estações mudarem lá fora. tenho mudado quase que diariamente a ordem dos objetos no vão da janela; plantas, velas, miniaturas e livros. tenho deixado a biblioteca fechada só pelo prazer de abri-la uma vez ao dia e ser recebida pelo aroma antigo dos nossos livros. não compartilhei muito do outono aqui, mas tenho colecionado folhas de tamanhos e cores diferentes e deixado secar entre páginas de revista. um dia talvez virem um quadro; pedaços de vários outonos eternizados sob o vidro. um dia talvez sejam pedaços mundanos de um passado distante vistos sob o verniz nostálgico do tempo graças à minha incansável curadoria de memórias. vai ser bom tê-las guardado.

eu tenho um sótão grande. eu sempre tive.

Hello, November.

comendo sobras dos doces de halloween e brincando com o gato.
ouvindo folk music suave, costurando, bebendo chá e arrumando o quarto.
lá fora chove. é um novo dia, de mais um mês.

seja bem vindo, novembro.
que você traga as mudanças de que eu preciso. estou fazendo a minha parte.