So long as men can breathe, or eyes can see.

The buds of May.

Shall I compare thee to a summer’s day?
Thou art more lovely and more temperate.
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date.
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed;
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature’s changing course, untrimmed;
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow’st,
Nor shall death brag thou wand’rest in his shade,
When in eternal lines to Time thou grow’st.
So long as men can breathe, or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.

– William Shakespeare

Hey May.

Abril passou voando. Maio já está quase na metade. O ditado diz “time flies when we’re having fun” e eu nunca concordei muito com isso. É verdade que o tempo se arrasta quando você está literalmente sofrendo, sentindo dor ou aguardando uma ligação do seu oncologista. Mas dias bons não passam correndo; eles se desdobram e se esticam, feito um gato se espreguiçando numa nesga de sol. E enchem páginas de diário com acontecimentos ou reflexões, deixam lembranças, piadas internas e histórias para contar depois.

O tempo voa quando estamos sem direção. Quando os dias se emendam iguais sem previsão de mudança, sem promessas ou expectativas. Eu não estou esperando nada porque sei que nada virá. Nada além do próximo mês, e do outro. Tirei o calendário da parede.

Recebi uma encomenda de plantas; junto com o livro, uma das únicas coisas que o correio entregou. Acho que somos a única casa da rua que não é visitada quase diariamente por caminhões de entrega. Não estamos comprando nada além de comida, e tudo bem. No começo do isolamento eu me comprometi a manter minhas caminhadas (duas a três vezes por semana, como sempre foram) mas entretida com as atividades que arrumei pra me ocupar, logo desisti.

O lilac floriu em abundância por duas semanas perfumadas, assim como o rododendro; a cerejeira se encheu de frutinhos verdes que eu sonhei colher maduros, mas por algum motivo quase todos caíram logo em seguida. Estou meio de saco cheio de limpar a cozinha todos os dias porque ele agora cozinha quase todos os dias, mas à bagunça se sucedem comidas deliciosas (ganhei alguns quilos e pela primeira vez na vida não estou dando a mínima; vamos ver se a nonchalance continua quando eu começar a perder roupas). Não me rendi ao passatempo nacional, não estou assando pães ou bolos (apesar de ter comprado um pacote de 10kg de farinha no começo da quarentena), mas fiz uns waffles que ficaram… meh. Receita ruim, pouco doce, muito farinhenta. Preciso achar uma melhor.

Pintei o cabelo de “mahogany” e a tinta só pegou nos fios brancos. Ficou pavoroso e já consertei a gracinha com o meu castanho escuro de sempre. Depois de uma fase de foda-se, voltei a usar os ácidos na esperança de melhorar o aspecto da minha pele. Economizo em filtro solar e maquiagem o que gasto em café. O jardim tem se mostrado uma lifeline absoluta. Não é bonito, nem bem cuidado; como jardineiros somos excelentes preguiçosos e eu tinha planos que foram adiados por conta do fechamento das lojas. Mas é nele que pego sol,  bebo gin & tônica no fim da tarde, me distraio arrancando ervas daninhas, plantando anuais e é onde me sento pra ouvir o canto do melro residente, rir dos esquilos brigando nos galhos, vigiar o ninho dos corvos e quem sabe ter um breve encontro com a raposa. Não é muito, mas é mais do que ter apenas uma janela e eu sou grata.

Eu *nunca* desejo que o tempo passe rápido, mas dessa vez há uma vantagem oculta na brevidade das horas: quanto mais depressa passar maio, menos tempo até virar o calendário para junho. E quem sabe em julho começaremos, aos poucos, a sair da clausura, feito borboletas úmidas largando pra trás o casulo, desajeitadas e incertas, esquecidas de como se mover mas ansiosas por deixar para trás esse tempo de crisálida, testar as asas e voar em direção à luz.

The earth laughs in flowers.

O mundo está lentamente se espreguiçando e acordando novamente e olhando ao redor vendo flores por toda parte. Mantê-las florindo é nosso dever, mesmo que sejam ervas daninhas. Meu gramado foi tomado por pequenas coisas roxas e rosa que lembram gerânios, mas que são selvagens e descuidadas e não se importam que eu pise nelas ou as decepe com cortador de grama; eles vão renascer debaixo dos meus pés e dos tocos deixados pelas lâminas. Eles são incansáveis e nunca vão desistir.

Clifton Nurseries.

Não há muitas nurseries na cidade (elas costumam ocupar muito espaço), mas Clifton é uma exceção. Compacta, mas bem organizada, com o obrigatório café e a lojinha de decoração para a satisfação dos clientes menos exigentes. A estufa é a minha parte favorita e alguma coisa na umidade, no calor e no som da água corrente que sempre me lembra o Brasil.

Nesta época do ano há cestas cheias de bulbos de narcisos por toda a parte e uma encantadora loja de artigos natalinos na Fern House. Eu não comprei o sedum retratado aqui (já tenho um e é gigantesco), mas trouxe para casa uma pequena string of pearls (finalmente!) dentro de um vaso bonito em forma de cabeça que mostrarei de outra vez.

Van Goghs for the price of a hospital wing.

post office clerks put up signs saying “position closed”
and secretaries turn off typewriters and put on their coats
and janitors padlock the gates for security guards to patrol
and bachelors phone up their friends for a drink
while the married ones turn on a chat show
and they’ll all be lonely tonight and lonely tomorrow

gentlemen, time please, you know we can’t serve anymore
now the traffic lights change to stop, when there’s nothing to go
and by five o’clock everything’s dead
and every third car is a cab
and ignorant people sleep in their beds
like the doped white mice in the college lab

telephone exchanges click while there’s nobody there
the Martians could land in the car park and no one would care
close-circuit cameras in department stores shoot the same movie every day
and the stars of these films neither die nor get killed
just survive constant action replay

and bill holdings advertise products that nobody needs
while angry from Manchester writes to complain about all the repeats on T.V.
and computer terminals report some gains on the values of copper and tin
while american businessmen snap up van goghs for the price of a hospital wing

and nothing ever happens, nothing happens at all
the needle returns to the start of the song
and we all sing along like before
and we’ll all be lonely tonight and lonely tomorrow

and nothing ever happens, nothing happens at all
they’ll burn down the synagogues at six o’clock
and we’ll all go along like before
and we’ll all be lonely tonight and lonely tomorrow

We could sit for years staring at our fears.

The neighbourhood is blossoming nicely. ♥

Highlights do sábado: ir pro Pizza Hut com meus amigos pedantes só pra comer o cookie dough (o melhor da cidade até agora), clima de varanda porém poder vestir um cardigã. Péssima decisão do sábado: saia jeans.

Annie, let’s not wait, let’s cross the river now
We could sit for years staring at our fears
Oh, they’re such pretty things they’re so cute
But our dreams are all we really need to grow

Blossom at my feet.

A floração das magnólias esse ano foi belíssima; a temperatura amena nos trouxe flores abundantes e pétalas perfeitas graças à ausência das famosas geadas de fevereiro. Passeios roubados aqui e ali quando as nuvens davam trégua; e deram poucas, pois apesar das cores da primavera março foi um mês cinza. A luz desses raros dias de sol acendia as flores coloridas nos galhos como pisca-piscas de natal, e o canto dos pássaros que começam a retornar da sua peregrinação anual em busca de ares mais cálidos soavam como christmas carols na manhã. A primavera é, indeed, um presente.

Estamos em abril. Domingo passado foi dia das mães; daqui a duas semanas, páscoa e feriado. Fora o Natal é o único aqui onde realmente TUDO fecha. Já comi o ovo “white chocolat gourmet” que comprei para a ocasião. Veredito? Yuck. Para a páscoa propriamente dita, na impossibilidade de conseguir um ovo de colher com recheio cremoso de chocolate branco, vou me acabar nessa barra de Lindt (que é cremosa por dentro, ou seja, quase lá).

Enquanto fotografava as magnólias fui abordada por uma dona fazendo cara feia. “Por acaso você está tirando fotos da minha casa?”. Olhei para o pé de magnólia, olhei para a dona e disparei, “por que, você mora numa árvore?” Ela deu uma risadinha como se tivéssemos acabado de dividir uma piada – mas você não me engana, Sharon. Saí de lá reflexiva: eu perguntei a uma gringa se ela morava em árvores. Sete palavras e eu vinguei algumas gerações de brasileiros. Yeah.

Cerejeiras e forsítias on the way in, quince blossoms e camélias on the way out. And it goes on.

honey, tonight, it’s cedar when you are around
warmer in spring, but call me whenever you’re down
blossom at my feet, flower

Closer to the heart.

And the men who hold high places must be the ones who start
To mold a new reality, closer to the heart
The blacksmith and the artist reflect it in their art
They forge their creativity closer to the heart
Philosophers and plowmen, each must know his part
To sow a new mentality
Closer to the heart

And it’s here

e chegamos a pensar que a primavera tinha desistido. mas a natureza, ao contrário das pessoas, jamais decepciona. isn’t she lovely?

hora de tirar os cardigans e chapéus da gaveta e limpar as sandálias, fazer spring cleaning, playlists novas para novas caminhadas, planejar piqueniques no campo, churrascos no quintal, sessões de fotos em campos de canola amarelinhos, cidras em pubs variados, shows de verão, roadtrips e afternoon teas em jardins de manor houses.

quero bordar um quadro, passear em mercados de pulgas ao ar livre, comer em mercados de rua com molho escorrendo pelos dedos, começar a reforma da cozinha (god help me), comprar um sofá, escolher o perfume do verão 2018, resolver o problema chamado “jardim” (quase licença poética, a essa altura), voltar a me exercitar diariamente, fazer algumas das receitas que venho colecionando num fichário de verdade (nada de folder no laptop), planejar movie nights, passar meu tempo com quem de fato quer estar comigo e sair do casulo onde venho me escondendo confortavelmente desde novembro.

now it’s time to say hello to the sun.

Put the kettle on, Polly

levei uma amiga para conhecer o garden centre de abridge, que fica a meia hora de carro daqui. a moça veio da zona 1 e as lojinhas de plantas do borough dela cobram fortunas por qualquer samambaia murcha.

mas visitar garden centres sem saborear um chá com bolinho caseiro no tea room: impensável.

e essas louças com cara de avó meio descombinandinho aquecem meu cuore. ♥

essa petúnia é mais dark que a minha alma:

gosto desses móveis vintage de ferro para jardim; infelizmente eles enferrujam, como dá pra ver na foto abaixo (e no meu pátio, porque eu tenho alguns já em vias de virar pó):

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esse é o william, o galo de estimação do fenlands – outro garden centre que também visitamos nesse dia.

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ele é enorme, mas inteiramente dócil: pede pra ser pego no colo e curte um carinho no papo. um bebezão, really. tão mosca-morta que foi atacado por um galinho miniatura bantam (três vezes menor do que ele) e acabou perdendo um olho no embate. disabled yes, adorable always. ♥

relax time in the evenings. desde que ajeitei o conservatório tá sendo complicado encontrar ânimo para sair de casa. ;)

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outro dia abri a porta pra checar o estado da roseira e meu olfato foi atingido em cheio pelo cheiro de petrichor; o nostálgico aroma da terra molhada depois da chuva. perks of suburban life, i guess.

also, suculentas na água:

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propagating…

sim, elas morrem se você puser água demais – mas por algum motivo estranho criam raízes e sobrevivem de boas quando deixadas apenas na água. vai entender…

aaaand hello june! behave, you little shit.