Hey May.

Abril passou voando. Maio já está quase na metade. O ditado diz “time flies when we’re having fun” e eu nunca concordei muito com isso. É verdade que o tempo se arrasta quando você está literalmente sofrendo, sentindo dor ou aguardando uma ligação do seu oncologista. Mas dias bons não passam correndo; eles se desdobram e se esticam, feito um gato se espreguiçando numa nesga de sol. E enchem páginas de diário com acontecimentos ou reflexões, deixam lembranças, piadas internas e histórias para contar depois.

O tempo voa quando estamos sem direção. Quando os dias se emendam iguais sem previsão de mudança, sem promessas ou expectativas. Eu não estou esperando nada porque sei que nada virá. Nada além do próximo mês, e do outro. Tirei o calendário da parede.

Recebi uma encomenda de plantas; junto com o livro, uma das únicas coisas que o correio entregou. Acho que somos a única casa da rua que não é visitada quase diariamente por caminhões de entrega. Não estamos comprando nada além de comida, e tudo bem. No começo do isolamento eu me comprometi a manter minhas caminhadas (duas a três vezes por semana, como sempre foram) mas entretida com as atividades que arrumei pra me ocupar, logo desisti.

O lilac floriu em abundância por duas semanas perfumadas, assim como o rododendro; a cerejeira se encheu de frutinhos verdes que eu sonhei colher maduros, mas por algum motivo quase todos caíram logo em seguida. Estou meio de saco cheio de limpar a cozinha todos os dias porque ele agora cozinha quase todos os dias, mas à bagunça se sucedem comidas deliciosas (ganhei alguns quilos e pela primeira vez na vida não estou dando a mínima; vamos ver se a nonchalance continua quando eu começar a perder roupas). Não me rendi ao passatempo nacional, não estou assando pães ou bolos (apesar de ter comprado um pacote de 10kg de farinha no começo da quarentena), mas fiz uns waffles que ficaram… meh. Receita ruim, pouco doce, muito farinhenta. Preciso achar uma melhor.

Pintei o cabelo de “mahogany” e a tinta só pegou nos fios brancos. Ficou pavoroso e já consertei a gracinha com o meu castanho escuro de sempre. Depois de uma fase de foda-se, voltei a usar os ácidos na esperança de melhorar o aspecto da minha pele. Economizo em filtro solar e maquiagem o que gasto em café. O jardim tem se mostrado uma lifeline absoluta. Não é bonito, nem bem cuidado; como jardineiros somos excelentes preguiçosos e eu tinha planos que foram adiados por conta do fechamento das lojas. Mas é nele que pego sol,  bebo gin & tônica no fim da tarde, me distraio arrancando ervas daninhas, plantando anuais e é onde me sento pra ouvir o canto do melro residente, rir dos esquilos brigando nos galhos, vigiar o ninho dos corvos e quem sabe ter um breve encontro com a raposa. Não é muito, mas é mais do que ter apenas uma janela e eu sou grata.

Eu *nunca* desejo que o tempo passe rápido, mas dessa vez há uma vantagem oculta na brevidade das horas: quanto mais depressa passar maio, menos tempo até virar o calendário para junho. E quem sabe em julho começaremos, aos poucos, a sair da clausura, feito borboletas úmidas largando pra trás o casulo, desajeitadas e incertas, esquecidas de como se mover mas ansiosas por deixar para trás esse tempo de crisálida, testar as asas e voar em direção à luz.

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