Before the golden hour.

meio dia, sol rachando. não era o melhor horário de pra uma sessão fotográfica. eu sugeri aguardar o fim da tarde e o dourado suave da “golden hour” – mas a moça só tinha esse tempo disponível entre as doze e duas da tarde e descolou uma permissão pra fotografar num jardim privado em notting hill, que normalmente só pode ser apreciado pelos sortudos donos das casas que o rodeiam. tínhamos que aproveitar. às seis da tarde eles chegam do trabalho e querem curtir o playground comunitário dos ricos, sem blogueiras fazendo poses forçadas embaixo de cerejeiras.

fora a câmera profissional que ela ganhou do mecenas (aka. papai) nós não temos refletores, tripés, medidores de luz nem nada do tipo. a rigor não temos nem mesmo uma fotógrafa; só alguém (eu) para apertar o shutter da câmera, porque também não temos controle remoto. ou seja, as fotos saíram uma porcaria e teremos que refazer. de preferência super cedo ou mais tarde, com uma luz mais amigável, porém sem o jardim bonito porque o privilégio (e a floração das cerejeiras no sul da inglaterra) já expirou.

notting hill é uma graça na primavera. as casinhas coloridas com os cachos de clematis e wisterias escorregando das fachadas, mas também com suas moradias sociais e imigrantes (em trajes e tons de pele tão variados quanto a escala pantone das casas) servindo peixe frito, samosas e dim sums pelas barraquinhas de golborne road. paramos no pizza east onde ela comeu salada (vegetariana) e eu a barrinha de pipoca com caramelo do pret a manger que tinha comprado perto da estação de ladbroke grove. rimos de grafites engraçados, de madamas comendo pizza com garfo e faca e de uma garotinha de uns três anos que xingava feito papagaio de boteco porque a mãe (morta de vergonha) se recusava a comprar-lhe sabe-se lá o quê.

lembrei de uma ocasião, muitos e muitos anos atrás, onde eu tinha essa idade e chorava muito dentro de um ônibus e xinguei (no volume dez) de um nome bastante feio uma criança com a qual a minha mãe havia me comparado. “olha lá a menininha bonita te olhando, ela é bonita porque não chora, você é feia”. chocada pela afronta, calei-me instantaneamente e só abri a boca de novo para vociferar profanidades. minha mãe abaixou a cabeça e desceu no próximo ponto, mesmo que estivéssemos a quilômetros de distância de casa. seria razoável acreditar que ela teria aprendido a respeitar minha individualidade e nunca mais tentado me humilhar ao me comparar com alguém. mas a verdade é que quem aprendeu a lição fui eu: xingar em voz baixa para não ter que voltar pra casa andando.

na volta, dentro do metrô, levanto os olhos do celular e observo as torres de canary wharf reluzindo feito pepitas de ouro bruto na linha do horizonte. e enfim se fez luz. perfeita.

(essas fotos não foram feitas com a câmera profissional e sim com a minha, que comprei no natal e veio com duas lentes incluídas no preço. elas também teriam saído melhores na golden hour, mas é o que tem pra hoje, senhores.)

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