Blue is a colour.

A primeira vez em que vi você depois da infância teve trilha sonora: trovões. A chuva não estava nem perto ainda, mas os céus já estavam cor de hematoma e se fosse mesmo chover daquele jeito o mundo ia acabar num remake do Dilúvio. Eu fiz uma piada ruim – como todas as outras que eu já havia feito e farei na vida – envolvendo uma suruba coletiva na arca de Noé para repopular o planeta quando percebi você ali. Quer dizer, “perceber” não era bem a palavra. Até hoje não descobri qual dos meus sentidos acusou a sua presença primeiro, mas tenho quase certeza de que senti o seu cheiro antes mesmo de distinguir a sua voz em meio às risadas mornas que a minha piada recebeu por educação.

Revi primeiro os seus sapatos. Botas pretas e curtas de couro, que deixavam à mostra as meias cor de vinho. Era tão improvável aquela cor que eu nunca mais a esqueci; acho que sou capaz de apontar o tom na escala Pantone. Outro dia mesmo comprei um pacote com seis meias no supermercado e, quando achei entre elas uma quase da mesma cor das suas, tive um déjà vu desconfortável; até as suas meias são difíceis de esquecer.

16 anos de carisma inabalável e eu lá, mal entrada nos treze e calçando chinelo cor de rosa – o equivalente na escala de coolness de fazer xixi na cama. Não havia a menor condição de competir, menos ainda depois que a piada ótima que você fez da minha piada ruim detonou uma explosão de gargalhadas na platéia. Filho de uma puta. Só não te odiei mais naquela hora porque minha lógica torta me soprou a seguinte idéia errada: “ele está te dando mole”.

Até hoje não sei o que me levou a concluir aquilo, já que você nem sequer estava olhando na minha direção e tinha uma moça pendurada no seu pescoço. Vai ver o fato de você também não estar olhando na direção dela tenha me dado esperança – quando o mundo não conspira a nosso favor a gente faz o que pode pra acreditar. Encarei a sua bochecha por uns seis segundos até que você se dignou a olhar para mim, com aquela outra cor que eu também nunca vou esquecer. E aí você riu, e eu ri também, e aí danou-se e a meia hora seguinte pegou a gente sentado num banco de concreto perto do muro e eu chutando com força os seus sapatos e perguntando se naquela loja “tinha meia pra homem” e você respondendo “sim, mas essa era a última; pra baranga ainda tem, quer o telefone?” e a gente rindo mais e elogiando a bunda perfeita da menina que até meia hora atrás estava pendurada no seu pescoço e agora tentava uma partida de vôlei solitária com a parede.

Segredinho meu que você provavelmente já conhece: apesar dos protestos fingidos, eu sempre apreciei o modo maquiavélico com que você jogava farelos para a minha auto estima ao mesmo tempo em que cavava o buraco onde ia enterrá-la dali a pouco. Com treze anos eu não me incomodava em esperar pela sua mão para me tirar lá do fundo depois. Com o passar do tempo eu fui me acostumando aos desenhos que fazia nas paredes do buraco e por muitas vezes  até preferia ficar lá dentro mesmo, arte-finalizando à mão a representação gráfica do meu fracasso, a sair de lá e ter que encarar a realidade sem direito a retoque. Com o passar do tempo o buraco virou a minha casa, a minha zona de conforto ilusória e eu precisava me esforçar demais para querer sair dele. Com treze anos eu só precisava chutar as suas botas.

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