On the way out.

Minha estadia na wonderful city está chegando ao fim mais rápido do que o esperado.
Da última vez era inverno. Fiquei por três meses e foi com um coração pesado que fui embora, sentindo saudade antecipada das longas viagens solitárias de ônibus na companhia da minha seleção de mp3s e pensamentos. Dessa vez eu sinto que, se tivesse ido embora no primeiro dia, já teria ido tarde demais.

Ponho a culpa em uma combinação de calor (nota mental: NUNCA MAIS Brasil no verão), irritação com meus pais (nunca fui uma pessoa particularmente paciente e o pouco que tenho vem sendo testado todos os dias), dificuldade em me manter numa dieta baseada em proteínas num país obcecado por carboidratos, as decepções de sempre com pessoas, o absurdo dos preços, tédio. Dessa vez meu espírito aventureiro parece ter me abandonado. Não senti tanta vontade de entrar num ônibus só para saber o que há do outro lado da rota. Talvez porque, nas poucas vezes em que tentei isso recentemente, acabei suando em algum fim-de-mundo sem nada para fazer a não ser entrar no próximo ônibus de volta pra casa. O que seria OK caso estivesse frio. Mas com os termômetros quase na casa dos 40 eu perco a vontade de viver – imagine desbravar o mundo pela janelinha de um busão intermunicipal sem ar condicionado.

Eu estava animada para o natal e ele acabou se tornando outra decepção. Numa inocência que já nem combina mais com a minha idade eu esperava reviver os sentimentos de antecipação e encantamento da infância – mas como seria possível se esse apartamento pequeno, quente e barulhento sequer tem cara de lar? Me senti um periquito engaiolado ao invés de uma versão em miniatura de mim mesma decorando a árvore com luzes e bolinhas coloridas ouvindo A Harpa e a Cristandade – por acaso mencionei que essa casa nem tem mais aparelho de som e não posso ouvir música? Por acaso mencionei os mosquitos? Fui estúpida por não me dar conta de que meus natais de infância aconteceram numa época diferente, em casas diferentes e para uma pessoa diferente. Eu não sou mais aquela menina, essa não é mais a minha casa e o dia foi gasto consumindo vastas quantidades de comida e me sentindo levemente desconfortável. Escolhi passar o ano novo sozinha em casa porque não queria nem mesmo estar em família. Minha mãe foi para a igreja (nah), meu pai dormiu cedo, eu não quis me inserir no contexto familiar alheio e as opções de sair pra rua não me apeteceram.

Sei que vou soar ingrata, mas… uma vez que você saiu da casa dos seus pais, não deve voltar.

Passo boa parte do tempo assistindo aos canais do Telecine que, por alguma compensação cósmica, estão todos liberados no pacote barato da minha mãe. E rezando por chuva. Por uma tempestade daquelas épicas, em que o céu escurece às duas da tarde e os trovões acordam os deuses do seu estado de inexistência. Apesar de várias promessas e alguns ensaios, não vi nenhuma assim desde que cheguei e, bem, eu sinto falta. Do barulho que os pingos grossos fazem ao explodir contra o vidro das janelas, do cheiro que emerge da terra encharcada, do verde potencializado depois que a poeira dos dias escorreu das folhas, do ar que eu respiro mais limpo e dos céus se abrindo em luzes peroladas ou até mesmo num arco íris. Se alguém me perguntasse hoje quais são as coisas de que mais sinto saudades eu não citaria o “calor humano”, a cervejinha pós trabalho, a “família e os amigos” e nem mesmo o supervalorizado feijão. Eu responderia que sinto falta desses singelos alívios diários da tensão, como correr debaixo de uma tempestade tropical e admirar a topografia privilegiada do Rio de Janeiro com a mata atlântica se espalhando pelos morros.

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(dado o histórico da família da minha tia em relação a cuidados com animais de estimação ele provavelmente não vai estar por aqui muito tempo; mas foi legal ter conhecido o Prejuízo)

Sinto falta do silêncio. De não ter que suar. De ouvir música ao invés dos caminhões tropeçando no buraco da estrada em frente à janela. Sinto falta da comida (trust me). De lojas cheias de coisas que eu de fato tenha vontade de comprar ou admirar. Da minha cama, dos meus travesseiros, do quarto que eu decorei. Das minhas bonecas, de ter um jardim. Sinto falta da minha vida e a quero de volta – a vida que eu posso ter agora, e não a que eu escolhi deixar para trás há sete anos, com todos os seus riscos e possibilidades. Ela podia ter sido triste, ela podia ter sido linda. Hoje ela não pode ser mais nada – porque simplesmente não foi. Eu segui por outro caminho e essa outra vida, a que eu não escolhi, já não é mais possível. Ela também não me escolheu e anda me lembrando disso aos gritos, todos os dias desde que cheguei. E então eu decidi ouvir.

Não estou triste. Estou apenas reflexiva. Talvez até esperançosa.

Não vou “ficar para o carnaval”, como previamente planejado. Não preciso de mais de uma decepção para descobrir que o carnaval possível não vai chegar aos pés dos carnavais de antes onde, fugindo do samba, eu entrava numa kombi com outros 10 adolescentes para cruzar a ponte Rio-Niterói e passar cinco dias brincando de casinha num barraco perto da praia na região dos Lagos. Mas essa época, essas pessoas, aquela menina não existem mais. Those days are gone. I should let them go.

Estarei voando de volta para o frio em breve.
A vida que eu quis me espera, e a que eu não quis não me esperou. Acho justo.

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