Shedding skins.

Na última noite como residente em Jersey fiz algo que há tempos não fazia – molhar meus pés no mar. Observei a maré subir na minha praia preferida (pequena, pitoresca, um mix de areia e pedrinhas frequentado quase que exclusivamente por gaivotas e patos) e me cobrir os pés, e depois os tornozelos, e depois quase até os joelhos enquanto um sentimento inexplicável de gratidão aliviava a sensação de nostalgia antecipada.

Na última manhã, enquanto eu procurava desesperadamente por mais caixas para abrigar o resto do mundo que estava transportando para o outro lado do canal, a porta azul aberta trazia para dentro da casa o canto dos pássaros, o zumbido dos insetos, o cheiro enjoado do honeysuckle e a primavera através das cores das folhas que acabavam de nascer novamente.

Minha relação com esse lugar foi um mal entendido desde o princípio. Seis anos de clausura no paraíso e agora eu tenho a cara de pau de ir embora sentindo que não me despedi direito. Pieguice de última hora, apego ao conhecido ou simplesmente amor aprendido pelo impacto do silêncio, o contraste entre a natureza quase intocada e a beleza obsessivamente cultivada e condensada em poucos quilômetros, esse vento constante que nunca me deixou sentir calor totalmente nesse lugar estranho, que não é exatamente um país mas não faz parte de nenhum outro. Que não é como nenhum outro.

Vou nos poupar das minhas analogias pseudo poéticas. Vou fechar essa porta, terminar o meu chá e voltar para as caixas.

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