Still a little bit of your words I long to hear

Da última vez que fui ao Rio entrei na papelaria que eu costumava frequentar quando estava no segundo grau. A escola ficava no meio do caminho entre a minha casa e o centro da cidade, e várias vezes eu e minha pequena turma de proscritos íamos bater perna e olhar vitrines depois da aula. Não lembro ao certo, mas acho que o horário da saída era às 11:45m. Ou seja, todo mundo com fome. Nunca me esquecerei da pizza gorda, gordíssima, coberta de mozzarela e tomate, inchada de tanto fermento na massa, que afogávamos de catchup e mostarda e coca cola gelada – ou, se a grana estivesse curta, um daqueles refrescos de máquina sem sabor definido, que alguns candidamente intitulavam “suco de amarelo”.

Nosso point favorito era a lanchonete que ficava nos fundos da Magal, logo antes da seção de brinquedos. A Magal (O Magazine Total!) era uma pequena rede de lojas de departamento carioca provavelmente direcionada às classes C e D. O domínio ainda existe, mas parece estar fora do ar. A Magal resistiu aos tempos modernos? Não sei, mas é certo que ela sempre existirá enquanto nos lembrarmos dela – e enquanto alguém se der ao trabalho de postar o jingle no YouTube.

Na papelaria (que dessa vez não era a Magal, e sim a Prolar, que veio um pouco depois) comprei três canetas; CIS ultra fine nas cores azul, preta e vermelha. Muito parecidas com a minha caneta favorita de todos os tempos, a Futura da Paper Mate. Igual a esse exemplar aí embaixo, só que eu preferia a versão com ponta extra fina, número 0.5.

Essas canetas escreveram (e desenharam) todos os meus anos 80 e 90. Em folhas de caderno, mesas de escola (borrando a fórmica se a gente não esperasse secar antes de enconstar a mão), sulfites reaproveitadas, contracapas de livros didáticos, mãos (pra que esmalte, se você pode pintar suas unhas de hidrocor, que não lasca? pra que tatuagem, se você pode mudar de idéia quanto ao desenho e apagar a tinta da caneta no banho? com 11 anos nada é eterno anyway), membros engessados dos amigos mais velhos, “arte” personalizada em mochilas e jeans, “cadernos de perguntas” onde segredos se misturavam a ficções elaboradas para impressionar ou disfarçar verdades desconfortáveis, camisetas no último dia de aula do último ano do segundo grau, a partir de onde novos caminhos precisavam ser escolhidos, com a confiança de quem acredita que é possível traçar destinos.

Novos amigos por fazer, novos cadernos para começar, novas dores de crescimento para afogar em poesia ruim e cerveja barata. Os nomes sendo anotados às pressas na camisa de malha suada, os desejos de boa sorte, números de telefone para não perder contato (que seria perdido, sim, sem ser excessivamente lamentado), brincadeiras e gozações, versinhos cafonas, desenhos… Quase sempre com a caneta Futura, que não “falhava” tanto quanto as esferográficas. Sempre sem perceber, no meio da algazarra, excitação e antecipação pelos três meses de férias, que estávamos crescendo e talvez deixando para trás os melhores anos das nossas vidas.

Acho uma bênção que crianças não tenham noção disso. É um carinho da vida (um dos poucos que receberemos dela) que, nessa idade, a gente não consiga ouvir o tic-tac do relógio guiando nossos passos para a eventual decepção.

Eu ainda tenho a minha camisa do último dia do último ano. O cheiro dos ovos e da farinha, que me acertaram de raspão quando eu corria tentando me esconder atrás de uma pilastra, não existe mais. A tinta hidrocor, com os anos, transformou todos aqueles desejos, planos, poesia, brincadeiras, pirocas com olhinhos e números de telefone num borrão monocromático. Comprei as canetas, clones mais baratos da original, sem a alça metálica com o logotipo de corações da Paper Mate. Elas não substituem, é claro. E não há nenhuma camisa onde deixar meus votos de felicidade, sorte na vida, “saúde, dinheiro e homem bonito” – que era o que eu escrevia para as amigas. As canetas de hoje são o máximo que eu posso ter, e até que não são muito diferentes da Futura em termos de desempenho. Trouxe pra casa na sacola plástica da loja e não consegui jogar fora a notinha. São bem parecidas mesmo. Enquanto escrevo, a caneta desliza macia sobre o papel, desenhando o caminho já percorrido e tendo à frente o que parece ser uma eternidade de vazio para preencher. Se eu fechar os olhos é quase igual.

É fevereiro, bitches. Hora de começar a dieta a sério; aquela que devia ter sido iniciada – e mantida – mês passado. Hora de tentar dar mais atenção a esse abandonado espaço virtual. Alguns de vocês já devem ter percebido que eu deletei algumas coisinhas virtuais que vinha acumulando nos últimos anos. Projeto Limpeza Digital 2011 a todo o vapor.

Em 2011 eu quero ler mais livros, assistir mais filmes, falar com mais pessoas (só as queridas, porque a vida é curta demais para ser desperdiçada com estranhos mal educados), produzir mais (fotos, textos, crafts, receitas…) e perder menos tempo fazendo coisas por obrigação fingindo que é por prazer. Essa armadilha em que a gente sempre acaba caindo de vez em quando, na vida.

Então eu vou mudar o layout desse site, vou postar com mais frequência (mas sem muita falação), vou tentar procurar coisas bonitas para compartilhar e, se possível, criar algumas delas também.

Feliz Ano Novo atrasado para todo mundo, mas nunca é tarde pra começar.

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