The kindness of strangers

A sua loja não ficava, exatamente, no meu caminho. Para falar a verdade, durante todo aquele ano-e-mais-um-pouco que passei perambulando sem destino por entre os arianos na capital da baixa saxônia, eu nem mesmo tinha um caminho. Nem trabalho, estudo, ocupação, assuntos-a-resolver, nada (a falta de livros, DVDs, TV e cinema numa língua que eu pudesse compreender provou-se fatal). Eu mesma fazia o itinerário do dia, motivada pelo tédio e com o único objetivo de sair, por algumas horas, da frente do computador (“e da geladeira”, me lembram os quilos que ganhei por lá). O roteiro da caminhada era variável, mas quase nunca passava por aquela rua lateral onde não havia nada digno de interesse além de uma creche, bicicletas ordenadamente estacionadas na calçada, um bar frequentado quase que apenas por moscas e a sua loja. Talvez nesta ordem de importância.

A vitrine chamou a atenção por combinar duas coisas que, num mundo regido pela ordem como a das bicicletas na calçada, não se devia combinar numa vitrine. Brinquedos e bebidas alcóolicas. Garrafas de vinho cobertas de pó dividindo espaço em prateleiras com bonecas feias de porcelana e móveis para as casinhas em que elas deveriam morar. Mas o que mais me intrigou foi o anúncio colado com durex no vidro e escrito à mão. Onde, segundo o google translator, lia-se: “aberto às quartas feiras, das 13h às 16h.”. Sim, uma loja que vendia brinquedos e entorpecentes e funcionava apenas três horas por semana. Um vórtex para uma dimensão muito mais interessante do que aquela onde eu estava vivendo; agendei mentalmente a visita.

Na quarta seguinte cheguei meia hora depois da abertura e pus os dois pés atrás quando, ainda na esquina, vi alguém limpando o vidro da vitrine e me dei conta de que você era um velhinho. Eu e minhas idéias pré-concebidas sobre alemães, todo aquele background sinistro de nazismo + eugenia + frieza + obsessão por regras… Tintas em cores acinzentadas e vermelho sangue pintando um quadro muito mais ameaçador do que toda uma realidade de motoristas sorridentes que paravam na faixa de pedestres para que eu passasse, crianças bem comportadas e caixas de supermercado que iluminavam meu dia com um “Hallo!” musical. Confortada pela lembrança dessas experiências finalmente me aproximei da loja – apesar do medo de ser atirada no forno que provavelmente ficava nos fundos, disfarçado de fábrica de pretzels… Me demorei de propósito fuçando uma mesinha cheia de tralhas na promoção que havia sido posta na calçada e foi aí que você chegou à porta. Saído de algum conto de natal vitoriano, blusa e colete, a barba branca e os olhinhos como duas blueberries caídas na neve. E um sorriso daqueles de fazer a gente acreditar em coisas improváveis (como blueberries no inverno, por exemplo).

Passei excelentes trinta minutos dentro daquele cômodo pequeno e cheirando vagamente a mofo e vinho oxidado. A conversa fluía tão bem que levei algum tempo até perceber que você não falava inglês e me lembrar que eu não entendia alemão. Comecei a desenterrar expressões e palavras soltas que tinham se enfiado na minha cabeça muito antes de eu sequer sonhar em conhecer o seu país, mas a maior parte do nosso animado diálogo era composto de risadinhas e dedos apontados para objetos aleatórios. “Puppenhaus!!”, eu exclamava eufórica. Você fazia que sim com a cabeça, e rindo, abria a porta da tal casa de bonecas, revelando o que mais parecia ser um puteiro parisiense, tamanha a quantidade de mini poltronas de veludo vermelho e abajures acesos. Eu queria saber quanto custavam as coisas e você erguia os ombros com uma expressão impagável de “não faço a menor idéia!” e aí caíamos na risada e era preciso telefonar para a esposa em casa, descrever o objeto em questão e perguntar o preço. Acho que você não estava muito acostumado a receber clientes. E você não sabe, mas a sua gentileza me fez sentir menos inferior e deslocada e destruiu mais estereótipos do que dez anos vivendo na terra do Chucrute poderiam ter feito. Os nossos risos foram a música mais bonita que ouvi durante aquele ano na Alemanha.

Saí da loja carregando um pequeno sofá, uma cômoda vintage em escala 1:12, um carrinho de bebê para bonecas de madeira, um pouco mais de apreço pela humanidade e ainda mais desconfiança em relação a clichês. Semanas depois deixamos o apartamento em List e nunca mais tive outra oportunidade de voltar.

Naquele dia, enquanto eu saía da loja, você me chamou e pôs na minha mão uma garrafa pequena, engordurada e coberta de pó, contendo algo que parecia vinho. Fez com as mãos um gesto que interpretei como sendo “muito bom, muito bom mesmo”, e eu confiei. A garrafa fica no sótão rosa e, mesmo não sabendo bem o que diabos estou bebendo, tomo um gole sorrateiro sempre que alguém aqui nesta ilha de gente supostamente educada e amável ignora o meu good morning, me atende numa loja sem sorrir ou revira os olhos quando esqueço como se diz uma palavra. E aí é como se os sininhos de natal daquele conto de onde você certamente saiu (para me fazer menos solitária e ausländer) repicassem de novo em uníssono, na frequência do seu riso.

Achei que você gostaria de saber, Mr. Walter.

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