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Em “casa” há algumas semanas e até sabe-se lá quando.

É a primeira vez que chego sem passagens de volta compradas, o que talvez seja sintomático. Por um bom tempo, enquanto ainda estava do lado de lá, tive sonhos recorrentes com a velha casa onde cresci, ou em que estava indo a lugares que só existem na minha cabeça – e somente enquanto durmo. Sonho com eles sempre, sei exatamente onde ficam, mas eles não existem nessa localização na vida real; pelo menos não da forma como aparecem nos sonhos. Sempre estou animada para a chegada, que nunca se concretiza ou então acordo assim que chego.

Eu daria um braço para estar, acordada, por quinze minutos num desses lugares. Algo me diz que eles significam LAR num sentido mais profundo do que eu consigo compreender. Sou extremamente apegada a lugares e coisas, mais do que a pessoas. Esses do sonho estão além do meu alcance (por ora?), e durante essas semanas tenho me contentado com lugares tangíveis, onde posso estar fisicamente.

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O post passado parece ter causado estranhamento a algumas pessoas. Eu não escolhi a dedo as coordenadas geográficas das imagens; eram lugares onde queria estar, e as fotos foram consequência. A Baixada Fluminense, pelo jeito, só devia mesmo servir para fornecer escravas mestiças para madames da Zona Sul e um destino para o lixo produzido por lá – e fazer a gentileza de inexistir no resto do tempo, que ninguém gosta de sequer pensar que pobres existem, quanto mais ser obrigado a olhar para eles. Falo sem (muita) mágoa. Foram mais de duas décadas na região, convivendo com a ironia e o desprezo de quem teve a “sorte” de ter nascido em (ou relocado para) outro endereço supostamente mais refinado. Nós aprendemos a gostar do que nos é familiar, ponto. Mas valorizo a atitude de quem se abre para novas experiências, não tem medo de se surpreender com o desconhecido e quer sempre se expandir, se ampliar, ao invés de se limitar trancando a si mesmo numa casquinha de segurança questionável se privando de experiências que podem dar uma sacudida na própria percepção do que seja Belo.

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Não costumo glorificar pobreza porque venho de um lugar onde ela me foi esfregada na cara a vida inteira; a convivência trouxe familiaridade e falo mal dela sem remorso. A pobreza é feia, cheira mal e pode ser violentíssima, não só no sentido “guerra civil” da coisa. Quando nos mudamos para a casa onde passei a infância, tinha um projeto de favela logo atrás. Como os moradores passavam por dentro do nosso quintal para cortar caminho (jogando lixo no chão e às vezes dentro da nossa casa, pelas janelas abertas), achamos melhor erguer um muro. Que também serviria para proteger a casa e evitar que nossa cadelinha fugisse. Eles nunca nos perdoaram por isso. Quando o tal muro desabou, durante uma tempestade de verão uns seis meses depois de ter sido erguido e quase matando minha mãe no processo, esses mesmos vizinhos desceram a rua cantando “O Muro Caiu! O Muro Caiu!” enquanto informavam alegremente a todos que minha mãe tinha morrido soterrada (por sorte, um exagero). Nenhum deles foi ajudá-la enquanto ela se erguia do meio dos entulhos e da lama que desceu junto com a enxurrada. Eu nunca os perdoei por isso.

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Mas a minha cidade não merece ser definida pelo ressentimento econômico de parte de seus habitantes, nem pela miopia social de quem nunca sequer pisou nela. E é por isso que, embora hoje eu esteja no que é considerado o “melhor bairro” da região (haha) e passe boa parte do meu tempo no Brasil me divertindo pela capital e visitando pessoas que não moram aqui, ainda gosto de perambular por vielas que me lembram a infância. Para ver as crianças jogando bola descalças, ouvir a buzina do pipoqueiro da tarde, o cheiro do jantar pronto vindo das casas em cujas calçadas as tias fofocam, os moleques ralando joelhos em quedas de bicicleta compradas no ferro velho, os muros pintados com cal e corante que descascam logo dando aquele aspecto levemente decaído que sempre me atraiu, as meninas do subúrbio passeando de shortinho e havaianas, os meninos do subúrbio com camisetas de marcas desconhecidas de surfwear de pé na esquina combinando o fim de semana nas praias da Zona Sul (para desespero dos que pagam IPTU alto pelo direito de viver longe deles). As feirinhas dominicais, os camelôs de porcarias coloridas made in china, a arquitetura impossível de um barraco de madeira dependurado numa encosta de morro, as latinhas de conservas coloridas transformadas em vasos de plantas, a beleza ingênua da iluminação caótica de uma favela à noite, um galo cantando na mureta e acordando a comunidade, as árvores cobrindo o quintal de sementes, as flores selvagens crescendo em meio à terra molhada depois das primeiras chuvas do ano.

Não espero que alguém que não tenha sido exposto a essas coisas desde cedo saiba ou queira apreciá-las. Mas espero o perdão dessas pessoas por achar que uma caixa de concreto sem alma com varandas de vidro verde seja tão estimulante para os meus sentidos quanto um prego enferrujado na parede. Pensando bem, eu prefiro o prego.

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A subida da serra de Petrópolis, cortando nuvens e a mata atlântica, é uma daquelas coisas que fazem ter valido a pena o berreiro que abri quando o cordão umbilical foi cortado; estar ali me compensa pelo breve incômodo de ter nascido. Mesma coisa para o Alto da Boa Vista, onde estive ontem visitando um amigo. Treze graus, pequenas cachoeiras distribuídas por entre a mata com aquela displicência cuidadosamente estudada da natureza, neblina e nuvens baixas para arrematar o espetáculo e eu ali, agradecendo por estar viva, não ser cega e estar exatamente naquele lugar, naquele instante, por merecer aquela visão. Diametralmente oposto em termos de belezas naturais, pegar o ônibus da viação Vera Cruz (agora em novas cores, incrivelmente menos bonitas) para o bairro onde nasci e rever lugares que serviram de pano de fundo para toda a minha infância, adolescência e parte da vida adulta, foi viajar de volta para mim mesma, por mais piegas que essa expressão seja.

O ônibus ainda faz o trajeto circular de sempre e graças a isso não precisei descer no bairro, hoje em dia violento e pouco recomendado. Meus olhos cruzaram com os de um amiguinho de infância parado na esquina da padaria Sol (fechada graças à bandidagem), onde muitas vezes fui cumprir o ritual de comprar picolé domingo à tarde com meu pai. O amigo, todo vestido de preto – o uniforme dos marginais da área – pareceu me reconhecer. Lembrei do dia em que, jogando queimado na rua, tivemos um pequeno entrevero e atirei-lhe a bola no rosto. Bateu num dente e cortou o lábio. Ele xingou bastante mas, minutos depois, sangue estancado, estávamos de novo na atividade. Meio ruivo, mirrado, dentes (ainda) ruins, e os olhos levemente estrábicos que me observaram por alguns segundos antes de se voltarem para o rapaz ao seu lado.

Não, eu acho que ele não me reconheceu. Mas, por via das dúvidas, espero que tenha esquecido aquela bolada.

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(Fotos cortesia do IPAHB – Instituto de Pesquisas e Análises Históricas da Baixada Fluminense).

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