Ho Ho Ho

Ontem à noite fomos medir os cômodos para comprar os móveis no Brasil. Vi as primeiras casas iluminadas. A maioria de gosto questionável. Haja luzes multicoloridas piscantes, trenós, renas. Casa é casa. Shopping center é outra coisa.

Enfim. Natal. Dentro de alguns dias, olha Santa Claus aí, gente.
Eu adorava Natal quando criança. Os cheiros vindos da cozinha me acordavam primeiro o nariz, depois a fome. Minha mãe já estressada às oito e meia da manhã porque o pão de rabanada tinha esgotado na padaria. E abrir latinhas de leite condensado em série – eu lambendo todas. E os desenhos natalinos na sessão da tarde, os especiais que todos os programas faziam, tudo era tão “natal” que não tinha como não se deixar envolver pelo clima. Até hoje me lembro do desenho de um burrinho que passou na noite de um certo natal, tão triste que me fez inundar de lágrimas o prato de rabanadas no meu colo. E a animação de “Rudolph, a rena de nariz vermelho”, um clássico da minha infância.

Então comecei a notar que o Natal das famílias dos comerciais do peru Sadia e do pernil Perdigão eram grandes, a árvore de Natal era enorme, a mesa farta, as crianças impecavelmente vestidas. O casting do meu natal tinha sempre os mesmos personagens: eu, meu pai e minha mãe. Nada de tios, priminhos, vovôs… E eu não via problemas nisso. A família do meu pai é quase toda péssima, dispenso de boas. Com a da minha mãe eu nunca tive muito contato (raras exceções) e nos raros encontros sempre fui tratada como um “bicho raro”, o que me agoniava.

Um certo natal meus pais fizeram um buraco na cerca do jardim para dizer que tinha sido o papai noel que abriu com alicate para poder passar com o trenó… Haha. E o mais bacana foi o circo que eles armaram uns dois dias antes, com meu pai reclamando que alguém tinha roubado a caixa de ferramentas dele; o que me provocou enorme desgosto porque eu adorava brincar com os martelos, pregos e parafusos. E na manhã de natal, junto com o meu presente (um boneco que tinha pipi, fazia pipi e vinha com um penico), apareceu a caixa de volta, porque “papai noel é honesto, pegou as ferramentas que precisava mas devolveu!”. :)

Tempos depois eu briguei com uma coleguinha mais velha perto do Natal e ela, acreditando que ia me matar de tristeza, berrou a plenos pulmões: “Papai Noel não existe!”. E eu, que sempre tinha desconfiado mesmo quando acreditava, apenas sorri e disse “eu já sabia”.

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