Santa, are you drunk?

Cumprida a promessa: comi e bebi tudo o que havia disponível e adormeci antes da fatídica meia noite. “Esqueci” de ver o especial de Natal da Xuxa, não tive a “sorte” de assistir a nenhum filme natalino americano, não montei árvore de natal, não acendi luzinha alguma, economizei energia e hipocrisia e não desejei feliz natal. Mas beber vinho e comer farofa é legal.

Me chamaram pra passar a Noite Infeliz num pseudo retiro não-religioso (na verdade um monte de bêbados metidos a hippie discursando contra o capitalismo e fumando maconha). Podia ter sido fun. Mas assim que a porta do meu quarto se tranca atrás de mim eu sinto que não há nenhum outro lugar no mundo onde eu queira de verdade estar.

– Será que um dia ainda vamos rir disso tudo?
– Nós TEMOS que rir disso tudo, algum dia.

Eu queria que você entendesse que “rir disso tudo”, pra mim, não vai ser quando (e se) eu um dia me achar sentada numa pilha de notas de cem dólares, ou fizer parte do cenário daquela foto de calendário que te mandei – um banheiro com paredes de vidro no alto de uma cobertura em NY. Naquele dia eu fiquei triste. Não por saber que eu talvez nunca venha a estar num lugar como aquele, mergulhada em espuma cheirosa às seis da tarde vendo as luzes de Manhattan se acenderem. E sim porque houve uma vez em que um banho humilde já me fez muito feliz. Que talvez eu nunca mais venha a sentir novamente, com ou sem dinheiro.

Eu era bem pequena, tinha acabado de me mudar de uma casa para outra (ainda em construção) e, sentada dentro de uma bacia de alumínio no chão do que viria a ser nossa cozinha, via a noite cair através da porta aberta. Minha mãe despejava água quentinha sobre a minha cabeça, eu estava ansiosa pelo fim do banho porque já podia ouvir a musiquinha de abertura do meu desenho animado preferido na TV.

Eu estava tão feliz, tudo era diferente, divertido e excitante, desde o fato de não termos ainda um banheiro propriamente dito até aquele monte de tábuas empilhadas pelos cantos e o cheiro de cimento fresco (eu sempre gostei de cheiro de cimento fresco) e a poeira eternamente em suspensão que grudava nas coisas e pessoas. E ao mesmo tempo tudo era tão familiar, o prazer de sentir a água quente escorrer pela pele arrepiada de frio, a voz da minha mãe reclamando da bagunça e da demora na obra… E eu estava orgulhosa de mim mesma, porque percebi que havia aprendido a cantar a musiquinha do desenho, e depois do banho ia ter coca cola e sanduíche de pão com ovo pra acompanhar o episódio.

Eu não preciso de nada pra ser feliz além de recuperar essa sensação de plenitude dentro da minha própria pele. Às vezes acho que nada que venha de fora terá, nunca mais, o dom de me fazer sentir exatamente assim. E, se estiver aqui dentro pode ser que tenha morrido afogado nas lágrimas ou sufocado embaixo de todas as coisas que tive que engolir pra continuar vivendo.

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