The freaking life.

O telefone toca no meio do pouco que me resta do meu dia. Era a Letícia querendo saber de mim. E, como sempre fazem, sem exceção, todos os meus “amigos” distantes, ela ME pergunta as novidades. Bem, meu senso prático avisa que quem se dá ao trabalho de pegar o telefone e discar para alguém é quem precisa ter as novidades – ou no mínimo algo relevante a dizer. Mas a realidade mostra outra coisa: que ainda existe no mundo gente que se propõe a perder tempo e torrar pulsos telefônicos a fim de saber “como vai você”.

Me sinto forçada a contar a única novidade do “mural de recados”: a de que me juntei à estatística de desgraçados que voluntariamente sacrificam sua felicidade em troca de (pouco) dinheiro. Resumindo, estou trabalhando, Letícia. Daí chovem perguntas querendo desdobrar um assunto que não me agrada e sobre o qual não estou a fim de falar: “trabalha onde?”, “faz o quê?”, “quantas horas?”, “ganha bem?”. Enfim, todas as respostas que dou me deprimem, e ela ri. Sim pessoas, ela RI.

A coincidência é que ela ligou minutos depois de eu ter recebido o primeiro salário (minha mãe sacou para mim no banco, durante o dia). Descontados os roubos regulamentados de praxe, o saldo final não me pareceu tão bom quanto o que eu imaginava. Não que seja tão pouco, mas a minha felicidade de outrora valia BEM mais. Resumindo: saí perdendo na troca, e isso não me fez bem. No outro emprego eu trabalhava seis horas, podia dormir até meio dia, não fazia na-da e chegava em casa em dois minutos – A PÉ. A empresa ficava literalmente na minha esquina. Agora eu acordo às seis e quinze, viajo sentada na escada do coletivo, me aborreço o dia inteiro e o salário no fim do mês não me fez ter um orgasmo.

Lembrei-me da Letícia no colégio, de como todos os professores puxavam o saco dela. Lembro-me de achá-la meio borocoxenta, mas de desde sempre ter a certeza de que ela se daria bem na vida – e eu não. Se os donos da grana nesse planeta são os mais idiotas (os livros de história me contam que os gênios morreram na miséria) meu inner self grita: “mas você É idiota, então porque consta da sua biografia episódios desglamourizados feito rachar um saquinho de pipoca de praça com seu namorado??”, e a minha resposta é um avexado “não sei”.

Só sei que fui dormir e chorei muito. E chorei preocupada, porque não ia poder chorar a noite toda: precisava acordar cedo e por isso teria que ficar pelo menos 20 minutos de olhos abertos DEPOIS de chorar, para que eles não amanhecessem inchados no dia seguinte. E isso me deprimiu ainda mais e me fez chorar mais ainda. E, hoje pela manhã, meus olhos inchados no espelho riam de si próprios e ambos me chamavam de fracassada. Concordei com eles fazendo um sinal de joinha e me encaminhei mais uma vez para o ponto de ônibus, cortando a neblina com a minha triste figura e prometendo a mim mesma renascer sob a singela forma de um pé de chuchu na próxima vida.

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