Au revoir, enfants

Babies, indo pra Cape Cold now. Volto ano que vem (ou seja, em menos de 15 horas, hahaha).
Sério: os doidos que vão comigo devem voltar no domingo, mas como eu detesto praia e vou só pra beber em quiosque de orla e observar o movimento, devo me cansar disso lá pela sexta feira, mesmo. Mas não prometo nada.

Devidamente roubada e adaptada da F.:

+ o que você fez em 2003 que nunca fez antes?
hm… sei lá. Escolhi a cor da parede do meu quarto.

+ Você manteve as resoluções de ano novo de 2003, e fará novas para 2004?
Eu nunca faço isso. Perda de tempo.

+ Alguma pessoa próxima teve um bebê?
Acho que não.

+ Alguma pessoa próxima morreu?
Sim, sim.

+ Que lugares você visitou?
Bem poucos, pro falta de tempo. E eu estava gastando muito dinheiro com coisas idiotas. Em 2004, se eu continuar no trabalho, continuarei guardando grana – mas para coisas legais.

+ O que você gostaria de ter em 2004 que faltou em 2003?
Hm… qual o limite de caracteres dos posts?

+ Que data de 2003 vai ficar marcada em sua lembrança?
não foi um acontecimento legal.

+ Qual sua maior realização no ano?
Eu comprei uma coisa que eu queria muito. E aprendi a ser menos babaca – um pouco menos. E conheci gente nova legal. E acho que me livrei dos carmas de gente filhadaputa da internéte.

+ Qual foi o seu maior fracasso?
Emocionalmente falando, o ano foi meio pífio.

+ Você teve alguma doença?
Sim, mas tudo se resolveu bem. Nem doenças me aguentam por muito tempo.

+ Qual foi a melhor coisa que você comprou?
apesar de tudo, minha câmera.

+ Que comportamento mereceu comemoração?
nenhum.

+ Que comportamento foi deprimente?
o resto do mundo cabe numa resposta?

+ Pra onde foi a maior parte do seu dinheiro?
na manutenção desse computador.

+ O que te deixou realmente excitado:
fazer fotos e ouvir música boa.

+ que canções sempre vão te lembrar de 2003?
sei lá, eu só ouço coisa velha, mesmo… Mas ok, acho que esse foi o ano da Kelly Key.

+ Comparando-se com essa época, no ano passado, você está:
I. mais feliz ou mais triste? acho que na média.
II. mais magro ou mais gordo? definitivamente mais gorda.
III. mais rico ou mais pobre? mais rica, eeeeeee.

+ O que você queria ter feito mais?
fotos e viagens.

+ O que você queria ter feito menos?
gastos inúteis.

+ Como vai passar o reveillon?
na praia de Cabo Frio.

+ você se apaixonou em 2003?
felizmente, não.

+ Quantos ficantes?
Acho que passei da fase de achar graça em ficadas. Entreter algum beócio noturno para quem eu serei mais um número na lista de bocas da noite? Não.

+ Qual foi seu programa de TV favorito?
TV Fama, eeeeeee!!!
Nah, mentira. Nada digno de nota na TV, really.

+ Você odeia alguém hoje que não odiava há um ano?
Hm… Acho que felizmente, não. Meus ódios se mantiveram constantes, o que já pode ser considerado um avanço.

+ Você gosta de alguém hoje que odiava há um ano?
Sim, sim – vejam como eu estou melhorando como pessoa, não passei a odiar ninguém e ainda tolero quem odiava, haha.

+ Qual foi o melhor livro que você leu?
Não sei se dá pra citar aqui por ser meio barra pesada, embora não seja pornô, haha. Aliás foi o único que li, mas gostei.

+ Qual foi a sua maior descoberta musical?
Aprendi a parar de renegar meus gostos estranhos.

+ O que você quis e conseguiu?
Uma câmera digital.

+ O que você quis e não conseguiu?
Um propósito para a minha vida.

+ O que você fez no seu aniversário?
Foi um aniversário triste…

+ O que teria feito o seu ano infinitamente melhor?
Mais dinheiro.

+ Como descreveria seu modo de se vestir em 2003?
Roupas feitas em casa, sapatos coloridos, roupas pretas, jeans largos, vestidinhos, acessórios improvisados, enfim – o de sempre.

+ O que manteve a sua sanidade?
O meu bom senso.

+ Qual celebridade você mais admirou?
Não ligo para celebrities.

+ Qual episódio da política que te deixou mais puto?
Sem chance de lembrar do que quer que seja relativo a política, agora.

+ De quem sentiu falta?
Acho que de ninguém, de verdade. Estou conseguindo destruir vínculos humanos.

+ Quem foi a pessoa mais legal que você conheceu?
Pessoas geralmente não são legais. Ahn, ok: me dou por feliz por ter mantido as velhas pessoas legais.

+ Diga uma lição valorosa que aprendeu em 2003:
Viver a vida. Ela pode ser tirada de você antes que perceba.

Repetindo o que eu disse lá: Bebam muito, comam muito, porque viver é o momento presente – e não ficar remoendo o passado ou fazendo resoluções de fim-de-ano que talvez você nem tenha tempo de cumprir. Vejo vocês ano que vem.

Bizarro, bizarro.

Devo estar grávida. Acabei de engolir um pote de pêssegos em calda com batata palha. E descobri que creme de leite light parece vômito de gato. Odeio coisas diet. Melhor comer logo alface com nabo cozido OU assumir o peso. Eu prefiro a segunda opção.

E grupos de discussão podem ser uma coisa divertida (pelo menos mais que chats e Ircs):

lucci: puta paciencia. eu ja teria mandado ele tomar no cu.
eu: não é uma boa idéia. vai que ele aceita a sugestão, vai de fato tomar na bunda, fotografa tudo com a webcam e decide postar aqui??
gude: aiaiai, nao de idéias
guilherme: Deus tenha piedade de nós!!!!
smartt: Deus não existe. Eis a prova:

(segue-se foto do Smartt introduzindo o respectivo numa região pouco exposta de sua anatomia)

O Smartt é um personagem essencial a qualquer newsgroup. Escroto, boca suja, viciado em pornografia de quinta e DVDs de filmes Z, agride verbalmente a deus e o mundo, mas todos sentem falta quando ele some e pára de postar sua cota de 500 fotos de hard porn diárias. Agora ele comprou uma webcam (fez até um fotolog!!) e passa o dia postando fotos dos seus DVDs e VHS, fotos do seu pai – que ora parece estar vivo, ora parece estar empalhado – e também do seu membro hirsuto camuflado nas sombras.

Ele postou fotos minhas num fórum (com o singelo título Brazilian Biatch wants gringo d****) e graças a isso eu recebi um “convite” dessa “agência de modelo” aqui. Eu estou rindo até agora. Mas vou ter que declinar o convite.

I love you, you pay my rent.

Eu preciso de uma versão VELHA do Winamp. A atual é muito pesada. Any clue?

E segundo isso eu já tenho direito ao seguro desemprego. Yay, a idéia da demissão iminente já não é mais tão aterradora. Sinceridade? Nunca foi. Mas é melhor saber que terei três meses de sossego, COM Velox. =)

Last, but not least, o caminhão de beijo na bunda de hoje vai pra ela, que FEZ e me mandou o cartão mais lindo ever… Aliás, minto, os cartões (e todo o tipo de montagem/colagem) que ela faz são fodas, cada um mais lindo que o outro… Fora as palavras escolhidas a dedo pra ilustrar nossas vidinhas.

Glitter is all WE need:

De brinde esses über cute post its japoneses:

Close neles, que são fofos:

Sinto falta das nossas tardes sentadas na concha acústica da UERJ picando papel colorido como quem rasga dinheiro e entupindo tudo dentro de hand made envelopinhos chiques. A gente só devia crescer se quisesse, por escolha própria – e não ser obrigado.

Needless to say, you’re a real sistah, baby.
Vamos beber smirnoff ice horrores em january, quando F. estiver no rio.

Santa, are you drunk?

Cumprida a promessa: comi e bebi tudo o que havia disponível e adormeci antes da fatídica meia noite. “Esqueci” de ver o especial de Natal da Xuxa, não tive a “sorte” de assistir a nenhum filme natalino americano, não montei árvore de natal, não acendi luzinha alguma, economizei energia e hipocrisia e não desejei feliz natal. Mas beber vinho e comer farofa é legal.

Me chamaram pra passar a Noite Infeliz num pseudo retiro não-religioso (na verdade um monte de bêbados metidos a hippie discursando contra o capitalismo e fumando maconha). Podia ter sido fun. Mas assim que a porta do meu quarto se tranca atrás de mim eu sinto que não há nenhum outro lugar no mundo onde eu queira de verdade estar.

– Será que um dia ainda vamos rir disso tudo?
– Nós TEMOS que rir disso tudo, algum dia.

Eu queria que você entendesse que “rir disso tudo”, pra mim, não vai ser quando (e se) eu um dia me achar sentada numa pilha de notas de cem dólares, ou fizer parte do cenário daquela foto de calendário que te mandei – um banheiro com paredes de vidro no alto de uma cobertura em NY. Naquele dia eu fiquei triste. Não por saber que eu talvez nunca venha a estar num lugar como aquele, mergulhada em espuma cheirosa às seis da tarde vendo as luzes de Manhattan se acenderem. E sim porque houve uma vez em que um banho humilde já me fez muito feliz. Que talvez eu nunca mais venha a sentir novamente, com ou sem dinheiro.

Eu era bem pequena, tinha acabado de me mudar de uma casa para outra (ainda em construção) e, sentada dentro de uma bacia de alumínio no chão do que viria a ser nossa cozinha, via a noite cair através da porta aberta. Minha mãe despejava água quentinha sobre a minha cabeça, eu estava ansiosa pelo fim do banho porque já podia ouvir a musiquinha de abertura do meu desenho animado preferido na TV.

Eu estava tão feliz, tudo era diferente, divertido e excitante, desde o fato de não termos ainda um banheiro propriamente dito até aquele monte de tábuas empilhadas pelos cantos e o cheiro de cimento fresco (eu sempre gostei de cheiro de cimento fresco) e a poeira eternamente em suspensão que grudava nas coisas e pessoas. E ao mesmo tempo tudo era tão familiar, o prazer de sentir a água quente escorrer pela pele arrepiada de frio, a voz da minha mãe reclamando da bagunça e da demora na obra… E eu estava orgulhosa de mim mesma, porque percebi que havia aprendido a cantar a musiquinha do desenho, e depois do banho ia ter coca cola e sanduíche de pão com ovo pra acompanhar o episódio.

Eu não preciso de nada pra ser feliz além de recuperar essa sensação de plenitude dentro da minha própria pele. Às vezes acho que nada que venha de fora terá, nunca mais, o dom de me fazer sentir exatamente assim. E, se estiver aqui dentro pode ser que tenha morrido afogado nas lágrimas ou sufocado embaixo de todas as coisas que tive que engolir pra continuar vivendo.

Happy.

E então hoje eu passei bem longe daquele ponto-de-ônibus que me leva direto pra onde o demônio perdeu as botas e acabou ficando. Ou seja, não fui trabalhar. Tivemos festinha do pijama ontem, dancei a madrugada inteira e o meu melhor amigo baixou centenas de arquivos de musiquinha de karaokê e eu e ele e a T. e a S. cantamos all night long, e eu descobri que a minha voz cantando dancing queen do abba fica até ok e por isso decidi que terei uma banda cover do abba amanhã.

E hoje fomos à padaria de bicicleta comprar coisas e na volta a chuva despencou inesperada e voltamos pra casa rindo, tentando em vão proteger as coisas dentro das sacolas e descobrimos que descer ladeira de bicicleta na chuva é a melhor coisa ever, melhor até que pão crocante e quentinho com manteiga. Ok, talvez não melhor que pão crocante e quentinho com manteiga. Mas é bom.

E eu cheguei em casa com o cabelo grudado na cara e fizemos mil e quinhentas fotos que ele pediu pra não postar em fotolog nenhum, nunca, porque seriam só nossas pra toda a eternidade e riríamos dela até que as deletássemos – porque nada é eterno, porque sim, elas ficaram horríveis, estava escuro e o flash estraga tudo mas não, elas ficaram lindas porque a S. disse que eu tenho cabeça de alienígena mas olhos de rainha egípcia, e então eu sorri e ele fotografou a felicidade. Assim mesmo, com flash e no escuro. E eu vi que a felicidade até que é jeitosinha.

E agora eles estão na cozinha gritando e cantando dance music dos anos 90 enquanto fazem rabanada e pudim de pão (com o pão que molhou na chuva). Uma festa pra mim, porque eu estava triste e porque não indo trabalhar hoje eu perdi o happy hour da empresa. No remorse. Eu não queria mesmo ser um peixe fora d’água lá se o meu cardume está aqui.

Comi um prato de nuggets com batata frita e arroz papa e caldinho de feijão e fiquei tonta porque meu corpo estranhou. Me pesei na balança da farmácia ao lado da padaria e ela mostrou dois quilos e 300 gramas a menos. Estou com uma vontade incrível de beber vinho branco gelado mas ele não deixa porque sabe que vou passar mal. Mas me trafica copinhos de amaretto por debaixo da mesa and this is why he’s my friend.

E amanhã eu DEVO estar em casa. Tenho tanta coisa para fazer que minha cabeça dói. Mas tem também as estrelinhas no teto do quarto, e eu sei que elas sentem a minha falta.

Eu nem sei por que escrever tudo isso. Eu nem estou tão feliz assim, estou talvez exagerando artificialmente uma sensação que talvez seja só alívio. Mas ainda assim essa mentira benigna que estou contando a mim mesma é melhor do que Prozac. E agora eu vou lá na cozinha sentar na mesa e amá-los com os olhos enquanto eles cumprem, aos risos e sem cobranças, a boa ação do ano: me fazer sentir um pouquinho só menos “unlovable”.

Oh, what a night.

Eu não sou uma boa menina. Subi quase uma hora de morro rodopiando por entre becos e pulando poças de esgoto para chegar ao terreiro, digo, ao galpão do Salgueiro para um autêntico baile fânque carioca. Foi preciso guia local para que a gente achasse. Seguir o barulho não bastou.

Confesso que dancei e que ri. Funk proibidão não toca nas rádios. Mas toca lá. E as letras são de um brilhantismo ímpar. E achei bastante interessante, do ponto de vista sociológico, ter me deparado com inúmeros cidadãos sem camisa, dançando com AR-15 pendurados nos ombros. Chato só ter tomado uma coronhada, de bobeira, coisa assim “sem querer”, acidental – mas doeu e abriu uma pequenina brecha na minha testa.

MATADOR: Aí, foi mal…
Eu: Tem erro não, foi acidente.
MATADOR: É, tá vendo?…

E eu ia falar O QUÊ?

Bebi gummy de váááários sabores, comi churrasquinho (linguiça é mais seguro, o risco de o churrasco “miar” é menor), caipivódega, ouvi elogios à minha bunda e ao meu cabelo, fui chamada de “princesa” e outras coisas que a) eu não entendi ou b) prefiro fingir que não entendi. Não dei beijo na boca, though.

Amanhã eu não sei se volto lá, ou se vamos pra Vila Mimosa beber ou se vou com o J. pra um baile funk de rua no subúrbio onde ele será DJ. Os traficantes pagam 200 pratas pra quem fizer o serviço até o fim do baile lá pelas três, quatro da manhã. Pode rolar tiroteiro? É lógico. Aliás, estranho se não rolar. Mas do jeito que o Rio anda, daqui a breve tem tiroteios até dentro de Salão do Reino das Testemunhas de Jeová.

E, sem querer desmerecer a crença alheia, o baile funk é bem mais legal.

Rainy Sundays.

Fui ao shopping com as meninas. O antro das coroas dondocas caducas cheias de delineador e sombra verde nas pálpebras pelancudas. Eles fazem cara feia quando a gente esbarra nelas sem querer. Talvez elas acreditem que os esbarrões as farão morrer mais cedo. Se for assim, preocupação legítima.

Adquiri tralhas. Sem surtos consumistas, mas enchi algumas sacolas e parcelei minhas alegrias efêmeras em cinco vezes sem juros no cartão Renner. Eu não gosto mais de Natal, então não vou comemorar. Isso inclui não comprar presentes de Natal. Afinal, quantas vezes eu ganhei presentes que não foram nada sinceros ou quantas vezes me decepcionei com quem deu? Presentes não significam nada. Observem as atitudes de quem os cercam. E duas coisas: 1) valorizem amigos de verdade e 2) comprem seus próprios presentes. É mais legal e não tem risco de errar.

E voei pra casa achando que veria o show da turnê nova da Madonna, mas Band é Band e eu me decepcionei ao perceber que eles fizeram foi uma colagem de shows de turnês antigas (pior: apresentada pela Wanessa Camargo com o cabelo tingido de loiro dourado) ao invés de exibir a prometida “Drowned World”.

Tudo bem. Eles reprisaram principalmente a turnê do True Blue. A “Virgin Tour” de 1985 é meio fraca, apesar de eu curtir essa fase “early days”. A “Girlie Tour” eu assisti aqui no Rio… Vi a Madonna e dancei e fiquei rouca e quase fui pisoteada. A True Blue tem a Madonna com a voz e o corpo e o mito no auge. Não era playback e o vocal dela está com uma força e estabilidade incríveis (nada dos “miados” da Virgin Tour ou das leves desafinadas da Blonde Ambition – nesse caso perdoáveis, dado o esforço aeróbico intenso que ela exigiu).

E semana que vem tem especial de fim de ano na Band com Legião Urbana.
E eu ia falar sobre uma coisa séria, mas hoje não estou a fim, não. Passa amanhã.

What the frick?

Eu sempre me pergunto o seguinte: o que seria “demonstração de força”, afinal? Suportar ou desafiar? Cada vez mais a primeira alternativa me lembra acomodação ao invés de coragem.

Mas eu não vou me atirar do vão central da ponte Rio-Niterói. Até porque morrer afogada na baía de Guanabara não é a minha idéia de falecimento perfeito. Os coliformes fecais que infestam aquelas águas vão me apontar dedos e rir da minha desgraça. Fodam-se os coliformes – eu vou viver.

Só que eu vou aloprar. Já que pelos meios corretos, ortodoxos, legais e aprovados pela TFP e Igreja Católica não está dando certo, EU VOU ALOPRAR.

Aguardem cenas dos próximos capítulos.

A hard day’s night.

Tive uma noite fantástica. No mau sentido.

Às dez e meia desliguei o pc e fiquei feliz por estar indo dormir quase à hora recomendada para uma mocinha de família. Assim que meti a mão no interruptor da luz, prestes a me encaminhar para a cama, a porra do telefone toca. Eu já disse que odeio telefones umas mil e quinhentas vezes? Ainda assim, não terei dito o bastante: EU ODEIO TELEFONES. Eu devia ter feito o de sempre: ignorar. Mas o toque do meu aparelho é estridente, sabe. E eu estava numas de ir dormir, sabe. E minha mãe já tava no décimo pesadelo e não ia acordar pra atender, sabe. Atendi. MAU SAPÃO.

– Alô… (voz de Lolla puta e pra pouquíssima conversa).
– Oi, sua mãe tá acordada??

Whatever, pensei eu.

– Dormindo. Liga amanhã.
– Olha… Sou eu, Margareth, a vizinha do prédio quase aqui em frente… Presta bem atenção no que eu vou te dizer…

AH PRONTO, pensei eu.

– Tem um cara querendo pular pra dentro da sua casa… Ele tá de calça jeans e blusa branca. Tá em pé em cima do muro da casa ao lado olhando pra dentro do quintal de vocês…
– Tá legal.

Eu sou sem noção assim mesmo. Apesar de estar ouvindo algo supostamente aterrorizante, tudo em que eu consegui pensar foi: “Ok, Margareth, agora eu preciso dormir” e “que ladrão mais arrumadinho… Tia, se ele for gato me avisa que eu vou lá abrir a porta, RÁ”.

– Tá legal????
– Eu faço o quê? Chamo a polícia? – e eu disse isso sem o me-nor entusiasmo, só porque achei que deveria dizer. Acho que até mandei um bocejo nessa hora, by the way.

– Melhor subir no terraço e ver se ele realmente tem a intenção de invadir. Se você achar que sim, ligue pra polícia.

Ah, BOA. Primeiro ela achou que, tendo alguém praticamente dentro do meu quintal, eu seria louca a ponto de escancarar as portas da fortaleza pra checar alguma coisa. Fazer uma ENQUETE com o bandido. E se ela achava mesmo que havia a possibilidade de ele não querer invadir, porque ligou para meter o terror? E porque cacetes não chamou ela mesma a polícia?

– Tá bom então. Valeu. Tchau.

Click. “Ah, agora eu vou dormir!”, pensei eu. Mas a alegria durou pouco. A Margareth é amiga da minha mãe. Outra das desocupadas que vivem gravitando em torno dela. Amanhã, CERTEZA, ela vai tocar no assunto. E minha mãe vai me fritar em dendê porque eu não avisei. Imagina só. Um “mau elemento tentando invadir a residência”, e eu fui dormir. Que absurdo!!!

Absurdo era o meu SONO. Mas tá bom, vamos à boa ação do dia. Acordei a velha: “mãe-a-vizinha-ligou-e-disse-que-tem-alguém-pulando-o-nosso-muro-boa-noite-me-acorde-às-seis“.

– HEIN???????????

Porra. Fodeu, fodeu, fodeu.

Nos sessenta minutos que se seguiram a isso, ela surtou. Ligou para TODOS os telefones de amigas num raio de vinte quilômetros. Ficou recebendo ligações de volta de cada uma delas. Acendeu velas e orou. Me fez ficar de guardiã com os olhos grudados no visor da porta principal. Rastejou feito uma lagartixa pela casa, olhando por debaixo de frestas de portas. Fritou um ovo pra comer. Sequestrou um balde para o próprio quarto, com objetivos nada nobres. Eu bem que tentei ir pra minha querida cama durante o período. Não deu. O telefone tocava a cada dez segundos. A cada toque, uma desocupada diferente tocando O Terror Psicológico à la Hitchcock.

Finalmente, uma soneca de meia horinha. Da qual fui acordada à meia noite, com o ruído da porta da frente sendo escancarada. Bom, OU o ladrão conseguiu o que queria OU minha mãe pirou de vez e está abandonando o navio, feito os ratos. Abro a porta do meu quarto, esfregando os olhinhos no meu pijaminha de malha rosa listradinho e pantufa amarela e dou de cara com TRÊS POLICIAIS MILITARES, arma em punho, no meio da minha cozinha.

– A saída pro terraço é aqui, dona?

What. the. fuck.
Minha mãe apontou a subida, olhar grave. Nesse instante eu percebi que estava fodida e mal paga. Tranquei a porta do quarto, fui dormir e dormi mal; um sono povoado de pesadelos monstruosos. Acordei às seis e são os meus restos que digitam essa porcaria aqui, agora.

Eu acho que preciso ir dormir.
Por precaução, o telefone já está fora da tomada. Os DOIS.

Heart of glass.

Eu não sei o que faço aqui.
E sei menos ainda o que vocês fazem aí.

Para mim tudo é meio estranho agora. Parece que estou presa dentro de uma garrafa de vidro em exposição e todos do lado de fora me observam. Mas não me sinto mal porque vejo que todos eles também estão dentro de garrafas. Alguns se dão conta disso, outros não.

Talvez os que não percebam sejam os mais felizes. Eles apontam dedos para os outros e rolam de rir. Só que o fato de parecerem felizes não quer dizer que de fato estejam. Tomara que estejam. Se é para ser prisioneiro de uma garrafa de vidro e nem saber, é melhor que pelo menos a ignorância os deixe felizes.

Os que percebem não riem. Sofrem, mas há um paliativo: sabem que está em seu poder quebrar o vidro, sair das garrafas e respirar.

Mas que porcaria de vidro DURO, esse.

I’ve got a cold.

Resfriada, ouvindo Nina Simone e bebendo suco de groselha. Eu sou cool. Ainda estou puta com pessoas, mas deixa pra depois.

Um CD do Erasure. Coletânea. Bom ao cubo. Comprada há uns bons anos atrás, na época em que havia uma loja da Mesbla no Passeio, RJ. No tempo em que havia camelôs vendendo CDs roubados em frente a essa mesma Mesbla. No dia em que vi uma moça ser arremessada contra a vitrine de vidro dessa mesma Mesbla, por um “segurança” porque deu barraco depois de ser acusada de estar roubando um CD.

Saí morta de medo de o alarme apitar pra mim por engano e comprei um CD na mão dos camelôs. O segurança olhava de longe, com aquela cara de “ordens são ordens”.

Sangrou um pouco a testa da moça. E eu nunca mais dei um centavo à Mesbla, que faliu tempos depois.

Máquina do tempo.

De tempos em tempos eu recebo um ou outro email de gente que eu não conheço dizendo que eu sou legal e que eles acompanham assiduamente minha vidinha. Eu gostaria de conseguir fazer algo assiduamente, mas falta foco. Acho um site bacana e penso “Foda, vou ler todo dia!”. No dia seguinte já nem lembro o endereço. O mesmo com programas, novelas, pessoas. Não consigo dizer “presente” todo dia, nem a pau.

Mas às vezes, de bode no trabalho, leio a coluninha tosca e mal escrita do Lucio Ribeiro na Folha Online. Ele diz (e eu acredito) que tem gente que escreve até pro Ombudsman do jornal se queixando quando ele atrasa a atualização. Eu acho a coluna dele meio chata hype wannabe e aquela mania de escolher uma bandinha escrota qualquer a cada semana e dizer que é a melhor coisa do planeta na atualidade me dá preguiça. Mas eu sou uma chata wannabe também e tenho leitores; ou seja, a única diferença entre o Lúcio e a Lolla é que ELE recebe salário pra ser poser.

O pior é que eu sou uma idiota e gosto de conferir as bandas antes de falar mal. Lá vou eu gastar tempo e conexão à internet baixando músicas do Rapture, do Elefant, do White Stripes e afins pra ver qual é. Pra cada acerto, 20 arrependimentos. Strokes é uma das bandas mais sem graça que já ouvi na vida. Se os anos 90 foram um limbo musical, o novo milênio caminha a passos largos pra redirecionar a escala evolutiva da música ralo adentro de um bidê.

Estava eu no ônibus hoje voltando pra casa quando a Elis Regina apareceu no dial cantando “Como nossos pais”. É certo que “o novo sempre vem”, mas, e se o novo por acaso for ruim? Tem mesmo que renegar o passado só porque ele é passado? Devemos achar o passado cafona só porque a fila anda? Será que o “vamos em frente porque atrás vem gente” é uma verdade indiscutível?

Eu andava com meu pai pelo subúrbio onde ele passou a juventude e ele me dizia que as favelas sempre existiram, mas os “bandidos” daquela época respeitavam mulheres e crianças, não mexiam com trabalhador e resolviam suas pendengas na ponta do canivete. Evolução não é tudo. Eu tentei dar uma chance ao futuro, e me arrependi. Uma máquina do tempo, por favor.

Dark circles under our eyes.

Eu estava de costas para um dos pilares do coreto. A tarde indo embora rápido demais, mas deixando acesas a luz das estrelas. O vento me dava tapinhas no rosto, como se irritado com a minha tolice. Ele estava ali, eu estava lá, nos braços dele, eu sentia a ponta dos seus dedos nas minhas costas. Minha boca a centímetros da pele do seu pescoço. E eu estava em pânico. Um pânico tão grande que eu não conseguia me lembrar de que devia estar feliz.

De repente os lábios dele tocaram a minha testa. Nem vou falar no efeito de descargas elétricas que isso causou, porque é um clichê – mas são descargas elétricas. Não direi que foram cócegas em todas as células do meu corpo porque não foram. Ou melhor, foram também. Mas as descargas elétricas… Quem descreveu primeiro dessa forma o efeito do toque dos lábios do seu deus particular na sua testa, estava com a razão. E nunca será desmentido.

– Eu quero aquele beijo agora.

“Não, você não está dizendo isso”. Eu pensei enquanto sentia os lábios dele se moverem colados à minha pele. Frio na barriga, calor no peito, eu estava num estado de multi-temperaturas. O pé estava morno. A boca seca, desértica. Um rolo compressor me comprimia os membros e o pulmão, eu não podia me mover e nem respirar, e meu cérebro tinha virado vitamina de banana. Ou sopa, pois minha cabeça fervia. Tive até medo de queimar os lábios dele que, sempre colados à minha pele, falavam coisas que eu não era mais capaz de ouvir. E eu tinha certeza que o meu coração batia tão forte que tamborilava no peito dele. E ele era um idiota se não percebia. Os braços que envolviam a minha cintura machucavam, desacostumada que eu sou de carinhos. Não, ele não pode estar me pedindo um beijo. Porque eu não posso negar, mas eu preciso negar.

– Eu não posso.

– Por favor.

Não peça, pensei. Mas ele não ouviu. E pediu teatralmente, rindo com os lábios que estariam nos meus tão logo eu permitisse, mas algo na respiração dele traía nervosismo. Eu estava aprendendo a ler a respiração dele, os sinais do seu corpo. Bad news.

Só que não ia ter beijo. Ora Diabos, eu sou uma menina triste. Eu ouço músicas tristes em dias chuvosos, eu vivo com gente tosca, eu passo tardes sendo poser lendo poesia ruim em cemitérios, eu não me lembro mais do rosto de algumas pessoas que amei, eu troquei amigos por um diário e choro em comédias porque elas me lembram que eu não sei rir. Meninas como eu não beijam. Meninas como eu jamais terão na boca outra língua que não seja a própria. Meninas como eu não se deixam tocar. Meninas como eu não sentem coisas. Ok, eu sinto coisas e continuo sendo eu apesar disso. Quem sabe se eu fizesse as outras coisas não poderia continuar sendo EU também?

Não. Não vale a pena arriscar. Eu não vou trair o “movimento das meninas tristes solitárias”, o “movimento das meninas mal-amadas porque não conseguem amar”. Eu não vou cruzar a fronteira. Não vou ultrapassar a linha amarela. Não vou dar uma reviravolta de não-sei-quantos graus na minha vida. Não cabem reviravoltas na minha vida. Só as que me jogam no chão. E ele não era o chão. Ele era o céu, o paraíso, o horizonte com luzinhas de estrelas histéricas faiscando. Ele era tudo o que eu não podia tocar, porque eu não merecia.

Eu não vou destruir com um beijo real a mágica que é fantasiar beijos improváveis, noites a fio. Eu não vou trocar as noites que ardi abraçada a um travesseiro fervendo de desejo por noites abraçada a um homem que me fará virar outra pessoa. Eu não sei se quero ser outra pessoa. Não sei se quero evoluir, feito um Pokémon. Eu não vou renegar meu lado fracassado. Até porque ele é o único que tenho.

– Eu queria que a gente fosse só amigos…

E ele devagar ele afastou o corpo do meu. Ia me dizer alguma coisa crucial, mas eu nunca saberei o que era pois feito a idiota que sou o interrompi com uma observação estúpida:

– Seus olhos estão tristes.

E estavam. Era como se alguma das múltiplas luzinhas que piscavam desde sempre dentro deles tivesse queimado, e em efeito cascata, todas as outras fossem se apagando. Isso. Havia um curto circuito dentro dos olhos dele. Sem incêndios farfalhantes, só o apagar melancólico das luzes que iam morrendo. Perguntei o que era.

– Nada. Peito pesado, sei lá.

“Sinal de que tá cheio”, eu respondi. Nossa mãe. Naquela tarde eu havia pedido para ser imbecil e estava abusando da permissão.

– Não. Coração vazio é que pesa.

– Haha, corações desafiam as leis da física? (eu avisei)

E então ele riu. Mas eu podia jurar que não estava feliz.

– Não obedecem a lei alguma.

Talvez fosse verdade. Mas eu não sabia. Eu só obedecia às minhas.
Por mais estúpidas que possam parecer.

Morfeu writes.

E então eu estou cansada, e isso não é novidade. Sonhei que a Kelly Key estava sendo perseguida por uma matilha de dobermans portadores de hidrofobia. E depois ela acabava contraindo a doença dos cachorros e passava seus últimos dias babando pelos cantos, sufocando na própria saliva e por fim morria de asfixia quando seus músculos respiratórios paralisavam. Antes disso ela teria parido sétuplos. Sete seres híbridos, com cara de cachorro (os dobermans) e rabo de piranha (a Kelly Key?), vestindo boina de veludo, minissaia plissada e meias 3/4 listradas. COMO seres com rabo de PEIXE fariam para usar meia 3/4, eu não sei. Reclama com Morfeu, que é quem escreve o script do meu sonho.

O sono é uma espécie de ensaio para a morte. Que horrível.